terça-feira, 19 de fevereiro de 2019



De acordo com Jean Piaget, epistemólogo genético, a aprendizagem tem perspectiva construtivista, sendo assim, é preciso que a criança ou o aprendiz entre em contato com o novo conhecimento para começar a aprender, e que todos têm capacidade de aprender em ritmos diferentes. Este aprendizado envolve os esquemas delineados por Piaget: a assimilação, a equilibração e a acomodação, conforme estudamos nos capítulos anteriores.

Lev Vygostsky, de vertente sócio-construtivista diz que o social é de suma importância para que o aprendizado ocorra, a linguagem evolui a partir do contato da criança com a sua família, este contato para este autor é chamado de interação e a mediação é importante para o desenvolvimento da criança.

Henry Wallon (1879-1962) enfatiza as trocas relacionais entre a criança e seu meio ambiente e, a criança é vista por este autor como um ser emocional que vai se constituindo como um ser sócio-cognitivo e as etapas de aprendizagem e de desenvolvimento são descontínuas. Para este autor, a gênese da inteligência da criança (Wallon, nomeia como psicogênese da criança completa, sua teoria do desenvolvimento) é orgânica social e genética; a cultura intervém na sua estrutura orgânica.

Henry Wallon
http://psico-motricidade.blogspot.com.br/2015/11/teoria-do-desenvolvimento-humano-por.html
Paulo Freire ressalta que as experiências sociais, as vivências e compreender as leituras do mundo que cerca o indivíduo são importantes para o aprendizado:

Enquanto preparação do sujeito para aprender, estudar é, em primeiro lugar, um que-fazer crítico, criador, recriador, não importa que eu nele me engaje através da leitura de um texto que trata ou discute um certo conteúdo que me foi proposto pela escola ou se o realizo partindo de uma reflexão crítica sobre um certo acontecimentos social ou natural e que, como necessidade da própria reflexão, me conduz à leitura de textos que minha curiosidade e minha experiência intelectual me sugerem ou que me são sugeridos por outros. (Freire, Carta de Paulo Freire aos professores, http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142001000200013, Ensinar, aprender: leitura do mundo, leitura da palavra.

Aprendizagem para Emília Ferreiro está intrínseca ao papel ativo da criança no próprio aprendizado, portanto, as crianças constroem o conhecimento por meio de uma lógica individual, cada criança vai aprender no seu ritmo e vai criar os mecanismos necessários para assimilar, equilibrar e acomodar o conhecimento adquirido e esta é uma das importantes contribuições de Piaget acerca dos esquemas de aprendizagem. Vale a pena lembrar, conforme estudamos, que Emília Ferreiro foi aluna de Jean Piaget.

Acerca das teorias expostas, a aprendizagem revela a capacidade do ser humano aprender por meio de um processo de interação com o meio em que vive a partir das vivências e é apreendida de maneiras e ritmos diferentes pelo indivíduo.

O objeto de estudo da psicopedagogia é como o indivíduo aprende, portanto, é competência deste profissional também buscar a aprendizagem significativa para seu cliente, de acordo com Gonçalves: “as relações com o conhecimento, a vinculação com a aprendizagem, as significações contidas no ato de aprender, são estudados pela Psicopedagogia a fim de que possa contribuir para a análise e reformulação de práticas educativas e para a ressignificação de atitudes subjetivas” (apud BEAUCLAIR, 2004, p. 31).
4.2 QUAIS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM?

Dentro do contexto escolar, comumente é discutido se determinado aluno possui ou não dificuldade de aprendizagem. Sabe-se que, no decorrer dos anos escolares, ou mesmo no primeiro ano que a criança adentra o espaço e saberes escolares, as dificuldades podem se apresentar, desde uma tentativa de adaptação da criança em um novo ambiente contornado de regras, estímulos e o novo, até a dificuldade de aprendizagem propriamente diagnosticada por um profissional competente, o psicopedagogo ou o psicólogo escolar.

Sandra Maria Sawaya (2000) discorre sobre a alfabetização e o fracasso escolar delegando ao profissional especializado que faz o diagnóstico de crianças que apresentam falta de adaptação social ou de aprendizagem sobre a importância, por parte deste profissional, ter um novo olhar sobre as crianças que vivem em ambientes carentes e que pode gerar, deficiência cognitivas, psicomotoras, perceptivas, afetivas, emocionais e de linguagem que as impedem de se saírem bem na escola.

Sendo assim, a criança quando inicia a vida escolar possui aprendizados e vivências do ambiente familiar que podem interferir na sua aprendizagem. De acordo com Donald Woods Winnicott (1896-1971), pediatra e psicanalista inglês, para compreender as dificuldades de aprendizagens das crianças, é preciso entender aspectos relacionados ao ambiente que a criança vive, pois segundo Winnicott (1983), problemas no ambiente familiar, interferem sobremaneira no desenvolvimento emocional da criança, intimamente responsável pelos desvios de aprendizagem.


Para entender os problemas de aprendizagem é necessário primeiramente entender o que é aprendizagem.

Mantovanini (1999) em seus estudos, verificou que a escola adotam critérios para escolher os bons e os maus alunos, os alunos agitados e os apáticos, os lentos, os que não participam da aulas, se isolam e demonstram desinteresse, não resolvem as tarefas sozinhos, estes alunos, são considerados com problemas de aprendizagem.

Para este autor, a exclusão é o caminho que a escola determina a estes alunos, que revelam pela situação, passividade ou rebeldia, são aprovados sem saber ler ou escrever.

Os professores atarefados com os planos de aula e de ensino, preocupados em cumprir o currículo proposto, indiretamente o fazem pelos alunos considerados adequados para o ambiente escolar, aqueles que podem cumprir o proposto a partir de um ensino considerado ideal para os alunos ideais.

Araújo (apud Sawaia, 2002) reflete acerca da importância das transformações das relações interpessoais no ambiente escolar, seus modos de atuação que reproduzem, muitas vezes, práticas que revelam resultados opostos ao esperado no que diz respeito ao esperado para o ensino-aprendizagem.

4.3 DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM REVELADAS

As dificuldades de aprendizagens devem ser avaliadas por equipe multidisciplinar especializada. Muitas vezes, sem o cuidado necessário, atribui-se problemas orgânicos aos desvios de aprendizagem, portanto, o diagnóstico requer, além da observação, das escutas e olhares, aplicação de testes psicopedagógicos e o devido distanciamento das práticas do senso comum, onde no passado, diagnosticavam e medicavam erroneamente muitas crianças que tinham na verdade problemas de ordem socioeducativas (desvios na dinâmica ensino-aprendizagem).

Excluída a possibilidade de problemas de ordem sócioeducativas, é necessário verificar os transtornos que podem ser diagnosticados e tratados pela equipe multidisciplinar, tais como:


Dislexia:

A dislexia é um distúrbio genético e neurobiológico que gera a incapacidade do indivíduo de reconhecer e aprender a leitura, escrita e soletração. Este transtorno é percebido na fase em que a criança está sendo alfabetizada e na fase de aquisição da leitura e da escrita (componente fonológico da linguagem) apresentam:

- Leitura lenta e pouco fluente: pois há dificuldade da criança associar as letras, palavras e dar sentido à elas, quando lêem em voz alta, a fala é lenta;

- Atraso nas construções de frases: devido à dificuldade de associar palavras e dar sentido, as frases são construídas com esforço e com erros gramaticais;

- Erros ortográficos se fazem presente, principalmente nas palavras em que seja necessário a distinção sonora para sua formação; as regras ortográficas não são aprendidas de acordo com o esperado;

- Escrita espelhada: escrever palavras como se tivessem sido colocadas na frente de um espelho (de trás para a frente);

- Dificuldades em noções de lateralidade: não distinguem a mão esquerda da direita ou não conseguem entender comandos como virar à esquerda ou à direita;

- Dificuldades com noção de tempo e espaço: confundem ontem, hoje, acima e abaixo, inclui também a dificuldade de  lateralidade;

- Falta de concentração (déficit de atenção): não conseguem se concentrar em atividades que requerem atenção, esta dificuldade se apresenta também quando participam de jogos (exemplo: quebra-cabeças);

 - Dificuldade em ler mapas e dicionários;

- Desorganização e atrasos para entrega de atividades escolares;

- Dificuldade em copiar do livro e da lousa (além da escrita espelhada);

- Não conhecem ou tem dificuldade com as rimas e aliterações.


Disortografia: transtorno específico da aquisição da escrita
- Está presente na dislexia;
- Apresenta traçado incorreto da letra;
- Escrita lenta e pausada;
- A escrita apresenta erros por substituição, omissão inclusão de letras, separação ou junção de palavras.

Dislalia: distúrbio da fala
- dificuldade de articular as palavras e pronuncia comprometida, os fonemas são trocados, omitidos ou acrescentados.

Discalculia: dificuldade no aprendizado de tudo o que envolve números: operações; conceitos; aplicação; memorização; classificar e seqüenciar os números. Este distúrbio será estudado no módulo seguinte (Aquisição do conhecimento lógico e matemático).



Artigo para leitura:

Diferenciar dislexia de dificuldade de aprendizagem importa para as pesquisas mas não para o tratamento atual
Revista psico.usp | n.1, 2015

dupla-2.html
4.4 TESTES PSICOPEDAGÓGICOS DE LEITURA E ESCRITA

O processo de investigação psicopedagógica requer além da entrevista com seu cliente ou paciente com o objetivo de verificar em um primeiro momento como lida com a aprendizagem, ou melhor, como aquela criança, adolescente ou adulto aprende. O nome que esta entrevista recebe chama-se “Entrevista Operativa Centrada na Aprendizagem”.

O objetivo do processo de investigação psicopedagógica, além de verificar como o indivíduo aprende, requer avaliação inerentes à aprendizagem nas áreas: psicomotoras, afetivas, cognitivas, sociais, intelectuais e interacionais.

Cada dimensão da aprendizagem pode ser verificada com um teste específico: testes psicomotores; testes de linguagem e de escrita que verificam o social e auxiliam detectar dislexia; os testes de inteligência não têm como objetivo medir o QI (quociente de inteligência), mas sim verificar qual área precisa ser melhor trabalhada no indivíduo; para o afetivo e/ou emocional os testes projetivos; as provas pedagógicas avaliam o social, como a criança interage e se relaciona com o outro.

Para verificar a área cognitiva aplica-se as provas piagetianas, que situa o nível de cognição do indivíduo.

4.5 AS PROVAS PIAGETIANAS

Com o objetivo de criar um método científico de verificar atrasos no desenvolvimento, Jean Piaget, por meio de suas provas piagetianas, ressaltou a importância da etapas da construção do pensamento.

O desenvolvimento infantil para Jean Piaget é classificado em estágios, onde  as estruturas cognitivas são conferidas por meio da idade. Definiu então quatro estágios do desenvolvimento infantil: sensório-motor, pré-operatório, operatório concreto e operatório formal.
Esta classificação é um processo contínuo realizado por etapas e por meio deles o indivíduo desde o nascimento adquire novos esquemas de aprendizagem e melhora da cognição.


Para leitura:
Universidade do Porto (repositório aberto)
As provas operatórias de Jean Piaget: características metodológicas e implicações na avaliação psicológica
https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/19154/2/86377.pdf


As provas piagetinas é uma caixa que contém 13 provas:

Prova 1: conservação de pequenos conjuntos discretos de elementos (11 círculos vermelhos e 11 círculos azuis de E.V.A).
Prova 2: Conservação da superfície - 2 bases verdes lisas em E.V.A. medindo 20 x 25 cm; 16 quadrados vermelho (E.V.A); 2 vaquinhas marrons (E.V.A) com suporte preto para fixá-las em pé.
Prova 3: Conservação de quantidade de líquido: 9 unidades com  2 copos de 8 cm³; 1 copo de 4 cm³, 1 copo de 11,8 cm³, 1 copo de 7,8 cm³ e 4 copos de 6,5 cm³.
Prova 4: Conservação de quantidade de matéria - 1 caixa de massinha de modelar com 6 barras.
Prova 5: Conservação de peso: 1 Balança confeccionada em madeira e M.D.F. Base de M.D.F., 1 base de madeira central medindo 23x7 cm. 1 base de sustentação (para bandejas) de M.D.F. 1,2 cm e 2 ganchos pequenos que sustentam as 2 bandejas metálicas pretas de 6 cm de diâmetro e 6 correntes metálicas de 10 cm cada uma.
Prova 6: Conservação de volume: 9 unidades sendo: 2 copos de 8 cm³; 1 copo de 4 cm³, 1 copo de 11,8 cm³, 1 copo de 7,8 cm³ e 4 copos de 6,5 cm³. Acondicionados em caixa de papel cartão, forrada com feltro e envoltos em papel revista (mesmo jogo da prova 3).
Prova 7: Conservação do comprimento - 1 correntinha de metal medindo 10 cm, 1 correntinha de metal medindo 15 cm.
Prova 8: Mudança de critério (Dicotomia): 6 círculos grandes azul, 6 círculos grandes vermelho, 6 círculos pequenos vermelho, 6 círculos pequenos azul, 6 quadrados grande vermelho, 6 quadrados grande azul, 6 quadrados pequeno vermelho, 6 quadrados pequenos azul. Todos em E.V.A. Acondicionados em caixa de papel cartão branca, medindo 12x12x5 cm.
Prova 9: Inclusão de classes: 3 rosas de E.V.A. com contorno em serigrafia vinílica atóxica, fixadas em uma haste de metal (representando o caule) que ligam as folhas de E.V.A. as pétalas. 10 margaridas de E.V.A. coloridas, fixadas em uma haste de metal (representando o caule) que ligam as folhas de E.V.A. as pétalas. 10 tartarugas de E.V.A. colorido e 10 camelos de E.V.A. colorido.
Prova 10: Interseção de classes: 5 círculos pequeno azul, 5 círculos pequeno vermelho, 5 quadrados vermelho, todos em E.V.A. 1 base de E.V.A. serigrafada com 2 círculos (preto e amarelo).
Prova 11: Seriação de Palitos - 11 palitos medindo de 11 a 15,5 cm, formando uma sequência.
Prova 12: Combinação de fichas - 6 círculos coloridos em E.V.A.
Prova 13: Predição: 1 círculo branco, 7 círculos lilás, 10 círculos amarelos, 18 círculos verdes.

4.5.1 COMO APLICAR AS PROVAS PIAGETIANAS

O método utilizado para a aplicação das provas piagetianas é chamado de clínico, de livre conversação, onde há a interação do interrogador e de um sujeito (quem está sendo avaliado). O interrogador dirige as provas e pergunta quando nota a necessidade do sujeito justificar as suas respostas.

De acordo com Piaget não existem respostas certas ou erradas, a interpretação é que deve ser feita de acordo com um processo com o intuito de verificar como a criança pensa e poder classificá-la em um estágio (nível) pré-determinado de desenvolvimento cognitivo.

A avaliação é realizada de acordo com três níveis apresentados:

Nível 1: Não há conservação (o sujeito não atingiu o nível operatório).
Nível 2 (ou intermediário): As respostas apresentam instabilidade ou não são completas. Podem ou não demonstrar conservação.
Nível 3:  As respostas demonstram aquisição da noção sem vacilação.

http://professoraestelabp.blogspot.com.br/2011/07/prova-piagetiana.html



























SAWAYA, S. M. Alfabetização e fracasso escolar: problematizando alguns pressupostos da concepção construtivista, Revista Educação e Pesquisa. S.P: USP, V. 26, Jan/Jun 2000.

WINNICOTT, D.W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Trad. Irineo Constantino Schuch Ortiz. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.

LA TAILLE, YVES DE; OLIVEIRA, MARTA KOHL DE. Piaget, Vygotsky, Wallon :teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo : Summus.







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