De
acordo com Jean Piaget, epistemólogo genético, a aprendizagem tem perspectiva
construtivista, sendo assim, é preciso que a criança ou o aprendiz entre em
contato com o novo conhecimento para começar a aprender, e que todos têm
capacidade de aprender em ritmos diferentes. Este aprendizado envolve os
esquemas delineados por Piaget: a assimilação, a equilibração e a acomodação,
conforme estudamos nos capítulos anteriores.
Lev
Vygostsky, de vertente sócio-construtivista diz que o social é de suma
importância para que o aprendizado ocorra, a linguagem evolui a partir do
contato da criança com a sua família, este contato para este autor é chamado de
interação e a mediação é importante para o desenvolvimento da criança.
Henry
Wallon (1879-1962) enfatiza as trocas relacionais entre a criança e seu meio
ambiente e, a criança é vista por este autor como um ser emocional que vai se
constituindo como um ser sócio-cognitivo e as etapas de aprendizagem e de desenvolvimento
são descontínuas. Para este autor, a gênese da inteligência da criança (Wallon,
nomeia como psicogênese da criança completa, sua teoria do desenvolvimento) é
orgânica social e genética; a cultura intervém na sua estrutura orgânica.

Henry
Wallon
http://psico-motricidade.blogspot.com.br/2015/11/teoria-do-desenvolvimento-humano-por.html
Paulo
Freire ressalta que as experiências sociais, as vivências e compreender as
leituras do mundo que cerca o indivíduo são importantes para o aprendizado:
Enquanto preparação do sujeito para aprender,
estudar é, em primeiro lugar, um que-fazer crítico, criador, recriador, não
importa que eu nele me engaje através da leitura de um texto que trata ou
discute um certo conteúdo que me foi proposto pela escola ou se o realizo
partindo de uma reflexão crítica sobre um certo acontecimentos social ou
natural e que, como necessidade da própria reflexão, me conduz à leitura de
textos que minha curiosidade e minha experiência intelectual me sugerem ou que
me são sugeridos por outros. (Freire, Carta de Paulo Freire aos professores, http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142001000200013,
Ensinar, aprender: leitura do mundo, leitura da palavra.
Aprendizagem
para Emília Ferreiro está intrínseca ao papel ativo da criança no próprio
aprendizado, portanto, as crianças constroem o conhecimento por meio de uma
lógica individual, cada criança vai aprender no seu ritmo e vai criar os
mecanismos necessários para assimilar, equilibrar e acomodar o conhecimento
adquirido e esta é uma das importantes contribuições de Piaget acerca dos
esquemas de aprendizagem. Vale a pena lembrar, conforme estudamos, que Emília
Ferreiro foi aluna de Jean Piaget.
Acerca
das teorias expostas, a aprendizagem revela a capacidade do ser humano aprender
por meio de um processo de interação com o meio em que vive a partir das
vivências e é apreendida de maneiras e ritmos diferentes pelo indivíduo.
O
objeto de estudo da psicopedagogia é como o indivíduo aprende, portanto, é
competência deste profissional também buscar a aprendizagem significativa para
seu cliente, de acordo com Gonçalves: “as relações com o conhecimento, a
vinculação com a aprendizagem, as significações contidas no ato de aprender,
são estudados pela Psicopedagogia a fim de que possa contribuir para a análise
e reformulação de práticas educativas e para a ressignificação de atitudes
subjetivas” (apud BEAUCLAIR, 2004, p. 31).
4.2 QUAIS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM?
Dentro
do contexto escolar, comumente é discutido se determinado aluno possui ou não
dificuldade de aprendizagem. Sabe-se que, no decorrer dos anos escolares, ou
mesmo no primeiro ano que a criança adentra o espaço e saberes escolares, as
dificuldades podem se apresentar, desde uma tentativa de adaptação da criança
em um novo ambiente contornado de regras, estímulos e o novo, até a dificuldade
de aprendizagem propriamente diagnosticada por um profissional competente, o
psicopedagogo ou o psicólogo escolar.
Sandra
Maria Sawaya (2000) discorre sobre a alfabetização e o fracasso escolar delegando
ao profissional especializado que faz o diagnóstico de crianças que apresentam
falta de adaptação social ou de aprendizagem sobre a importância, por parte deste
profissional, ter um novo olhar sobre as crianças que vivem em ambientes
carentes e que pode gerar, deficiência cognitivas, psicomotoras, perceptivas,
afetivas, emocionais e de linguagem que as impedem de se saírem bem na escola.
Sendo
assim, a criança quando inicia a vida escolar possui aprendizados e vivências
do ambiente familiar que podem interferir na sua aprendizagem. De acordo com
Donald Woods Winnicott (1896-1971), pediatra e psicanalista inglês, para
compreender as dificuldades de aprendizagens das crianças, é preciso entender
aspectos relacionados ao ambiente que a criança vive, pois segundo Winnicott
(1983), problemas no ambiente familiar, interferem sobremaneira no
desenvolvimento emocional da criança, intimamente responsável pelos desvios de
aprendizagem.
Para
entender os problemas de aprendizagem é necessário primeiramente entender o que
é aprendizagem.
Mantovanini
(1999) em seus estudos, verificou que a escola adotam critérios para escolher
os bons e os maus alunos, os alunos agitados e os apáticos, os lentos, os que
não participam da aulas, se isolam e demonstram desinteresse, não resolvem as
tarefas sozinhos, estes alunos, são considerados com problemas de aprendizagem.
Para
este autor, a exclusão é o caminho que a escola determina a estes alunos, que
revelam pela situação, passividade ou rebeldia, são aprovados sem saber ler ou
escrever.
Os
professores atarefados com os planos de aula e de ensino, preocupados em
cumprir o currículo proposto, indiretamente o fazem pelos alunos considerados
adequados para o ambiente escolar, aqueles que podem cumprir o proposto a
partir de um ensino considerado ideal para os alunos ideais.
Araújo
(apud Sawaia, 2002) reflete acerca da importância das transformações das
relações interpessoais no ambiente escolar, seus modos de atuação que
reproduzem, muitas vezes, práticas que revelam resultados opostos ao esperado
no que diz respeito ao esperado para o ensino-aprendizagem.
4.3 DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM
REVELADAS
As
dificuldades de aprendizagens devem ser avaliadas por equipe multidisciplinar
especializada. Muitas vezes, sem o cuidado necessário, atribui-se problemas
orgânicos aos desvios de aprendizagem, portanto, o diagnóstico requer, além da
observação, das escutas e olhares, aplicação de testes psicopedagógicos e o devido
distanciamento das práticas do senso comum, onde no passado, diagnosticavam e
medicavam erroneamente muitas crianças que tinham na verdade problemas de ordem
socioeducativas (desvios na dinâmica ensino-aprendizagem).
Excluída
a possibilidade de problemas de ordem sócioeducativas, é necessário verificar
os transtornos que podem ser diagnosticados e tratados pela equipe
multidisciplinar, tais como:
Dislexia:
A
dislexia é um distúrbio genético e neurobiológico que gera a incapacidade do
indivíduo de reconhecer e aprender a leitura, escrita e soletração. Este transtorno
é percebido na fase em que a criança está sendo alfabetizada e na fase de
aquisição da leitura e da escrita (componente fonológico da linguagem)
apresentam:
- Leitura
lenta e pouco fluente: pois há dificuldade da criança associar as letras,
palavras e dar sentido à elas, quando lêem em voz alta, a fala é lenta;
- Atraso
nas construções de frases: devido à dificuldade de associar palavras e dar
sentido, as frases são construídas com esforço e com erros gramaticais;
- Erros
ortográficos se fazem presente, principalmente nas palavras em que seja
necessário a distinção sonora para sua formação; as regras ortográficas não são
aprendidas de acordo com o esperado;
- Escrita
espelhada: escrever palavras como se tivessem sido colocadas na frente de um
espelho (de trás para a frente);
-
Dificuldades em noções de lateralidade: não distinguem a mão esquerda da
direita ou não conseguem entender comandos como virar à esquerda ou à direita;
-
Dificuldades com noção de tempo e espaço: confundem ontem, hoje, acima e
abaixo, inclui também a dificuldade de lateralidade;
-
Falta de concentração (déficit de atenção): não conseguem se concentrar em
atividades que requerem atenção, esta dificuldade se apresenta também quando
participam de jogos (exemplo: quebra-cabeças);
- Dificuldade em ler mapas e dicionários;
-
Desorganização e atrasos para entrega de atividades escolares;
-
Dificuldade em copiar do livro e da lousa (além da escrita espelhada);
-
Não conhecem ou tem dificuldade com as rimas e aliterações.
Disortografia: transtorno específico da aquisição da escrita
-
Está presente na dislexia;
-
Apresenta traçado incorreto da letra;
-
Escrita lenta e pausada;
- A
escrita apresenta erros por substituição, omissão inclusão de letras, separação
ou junção de palavras.
Dislalia: distúrbio da fala
-
dificuldade de articular as palavras e pronuncia comprometida, os fonemas são
trocados, omitidos ou acrescentados.
Discalculia: dificuldade no aprendizado de tudo o que
envolve números: operações; conceitos; aplicação; memorização; classificar e
seqüenciar os números. Este distúrbio será estudado no módulo seguinte
(Aquisição do conhecimento lógico e matemático).
Artigo
para leitura:
Diferenciar dislexia de dificuldade de aprendizagem
importa para as pesquisas mas não para o tratamento atual
Revista
psico.usp | n.1, 2015
dupla-2.html
4.4 TESTES PSICOPEDAGÓGICOS DE LEITURA E
ESCRITA
O
processo de investigação psicopedagógica requer além da entrevista com seu
cliente ou paciente com o objetivo de verificar em um primeiro momento como
lida com a aprendizagem, ou melhor, como aquela criança, adolescente ou adulto
aprende. O nome que esta entrevista recebe chama-se “Entrevista Operativa
Centrada na Aprendizagem”.
O
objetivo do processo de investigação psicopedagógica, além de verificar como o
indivíduo aprende, requer avaliação inerentes à aprendizagem nas áreas:
psicomotoras, afetivas, cognitivas, sociais, intelectuais e interacionais.
Cada
dimensão da aprendizagem pode ser verificada com um teste específico: testes
psicomotores; testes de linguagem e de escrita que verificam o social e
auxiliam detectar dislexia; os testes de inteligência não têm como objetivo
medir o QI (quociente de inteligência), mas sim verificar qual área precisa ser
melhor trabalhada no indivíduo; para o afetivo e/ou emocional os testes
projetivos; as provas pedagógicas avaliam o social, como a criança interage e
se relaciona com o outro.
Para
verificar a área cognitiva aplica-se as provas piagetianas, que situa o nível
de cognição do indivíduo.
4.5 AS PROVAS PIAGETIANAS
Com
o objetivo de criar um método científico de verificar atrasos no
desenvolvimento, Jean Piaget, por meio de suas provas piagetianas,
ressaltou a importância da etapas da construção do pensamento.
O desenvolvimento
infantil para Jean Piaget é classificado em estágios, onde as estruturas cognitivas são conferidas por
meio da idade. Definiu então quatro estágios do desenvolvimento infantil:
sensório-motor, pré-operatório, operatório concreto e operatório formal.
Esta
classificação é um processo contínuo realizado por etapas e por meio deles o
indivíduo desde o nascimento adquire novos esquemas de aprendizagem e melhora
da cognição.
Para
leitura:
Universidade
do Porto (repositório aberto)
As
provas operatórias de Jean Piaget: características metodológicas e implicações
na avaliação psicológica
https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/19154/2/86377.pdf
As
provas piagetinas é uma caixa que contém 13 provas:
Prova
1: conservação de pequenos conjuntos discretos de elementos (11 círculos
vermelhos e 11 círculos azuis de E.V.A).
Prova
2: Conservação da superfície - 2 bases verdes lisas em E.V.A. medindo 20 x 25
cm; 16 quadrados vermelho (E.V.A); 2 vaquinhas marrons (E.V.A) com suporte
preto para fixá-las em pé.
Prova
3: Conservação de quantidade de líquido: 9 unidades com 2 copos de 8 cm³; 1 copo de 4 cm³, 1 copo de
11,8 cm³, 1 copo de 7,8 cm³ e 4 copos de 6,5 cm³.
Prova
4: Conservação de quantidade de matéria - 1 caixa de massinha de modelar com 6
barras.
Prova
5: Conservação de peso: 1 Balança confeccionada em madeira e M.D.F. Base de
M.D.F., 1 base de madeira central medindo 23x7 cm. 1 base de sustentação (para
bandejas) de M.D.F. 1,2 cm e 2 ganchos pequenos que sustentam as 2 bandejas
metálicas pretas de 6 cm de diâmetro e 6 correntes metálicas de 10 cm cada uma.
Prova
6: Conservação de volume: 9 unidades sendo: 2 copos de 8 cm³; 1 copo de 4 cm³,
1 copo de 11,8 cm³, 1 copo de 7,8 cm³ e 4 copos de 6,5 cm³. Acondicionados em
caixa de papel cartão, forrada com feltro e envoltos em papel revista (mesmo
jogo da prova 3).
Prova
7: Conservação do comprimento - 1 correntinha de metal medindo 10 cm, 1
correntinha de metal medindo 15 cm.
Prova
8: Mudança de critério (Dicotomia): 6 círculos grandes azul, 6 círculos grandes
vermelho, 6 círculos pequenos vermelho, 6 círculos pequenos azul, 6 quadrados
grande vermelho, 6 quadrados grande azul, 6 quadrados pequeno vermelho, 6
quadrados pequenos azul. Todos em E.V.A. Acondicionados em caixa de papel
cartão branca, medindo 12x12x5 cm.
Prova
9: Inclusão de classes: 3 rosas de E.V.A. com contorno em serigrafia vinílica
atóxica, fixadas em uma haste de metal (representando o caule) que ligam as
folhas de E.V.A. as pétalas. 10 margaridas de E.V.A. coloridas, fixadas em uma
haste de metal (representando o caule) que ligam as folhas de E.V.A. as
pétalas. 10 tartarugas de E.V.A. colorido e 10 camelos de E.V.A. colorido.
Prova
10: Interseção de classes: 5 círculos pequeno azul, 5 círculos pequeno
vermelho, 5 quadrados vermelho, todos em E.V.A. 1 base de E.V.A. serigrafada
com 2 círculos (preto e amarelo).
Prova
11: Seriação de Palitos - 11 palitos medindo de 11 a 15,5 cm, formando uma
sequência.
Prova
12: Combinação de fichas - 6 círculos coloridos em E.V.A.
Prova
13: Predição: 1 círculo branco, 7 círculos lilás, 10 círculos amarelos, 18
círculos verdes.
4.5.1
COMO APLICAR AS PROVAS PIAGETIANAS
O
método utilizado para a aplicação das provas piagetianas é chamado de clínico,
de livre conversação, onde há a interação do interrogador e de um sujeito (quem
está sendo avaliado). O interrogador dirige as provas e pergunta quando nota a necessidade
do sujeito justificar as suas respostas.
De
acordo com Piaget não existem respostas certas ou erradas, a interpretação é
que deve ser feita de acordo com um processo com o intuito de verificar como a
criança pensa e poder classificá-la em um estágio (nível) pré-determinado de
desenvolvimento cognitivo.
A
avaliação é realizada de acordo com três níveis apresentados:
Nível 1: Não há
conservação (o sujeito não atingiu o nível operatório).
Nível
2 (ou intermediário): As respostas apresentam instabilidade ou não são
completas. Podem ou não demonstrar conservação.
Nível 3: As
respostas demonstram aquisição da noção sem vacilação.
http://professoraestelabp.blogspot.com.br/2011/07/prova-piagetiana.html
SAWAYA, S. M. Alfabetização e fracasso
escolar: problematizando alguns pressupostos da concepção construtivista, Revista
Educação e Pesquisa. S.P: USP, V. 26, Jan/Jun 2000.
WINNICOTT, D.W. O
ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento
emocional. Trad. Irineo Constantino Schuch Ortiz. Porto Alegre: Artes Médicas,
1983.
LA
TAILLE, YVES DE; OLIVEIRA, MARTA KOHL DE. Piaget, Vygotsky, Wallon :teorias
psicogenéticas em discussão. São Paulo : Summus.
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