terça-feira, 19 de fevereiro de 2019


O ATO DE LER E A PSICOPEDAGOGIA


"A psicopedagogia estuda a aprendizagem normal e patológica tanto com um sentido preventivo como terapêutico. A aprendizagem abre o caminho da vida, do mundo, das possibilidades, até de ser feliz." Jorge Visca


A PSICOPEDAGOGIA, SEU OBJETO DE ESTUDO E O ALUNO LEITOR

No fazer psicopedagógico, a significação do ato de ler é intrínseca à aquisição da leitura, pois na prática profissional do psicopedagogo, os desvios de aprendizagem de origem patológica ou de defasagem educacional dos alunos a ser verificados, requerem entender como este aluno aprende, para tanto a Psicopedagogia tem em seu objeto de estudo a base para direcionar o aluno para desenvolver suas competências e habilidades.

Entender como o aluno aprende no olhar psicopedagógico suscita que cada indivíduo é singular na sua aprendizagem, assim sendo, no processo de ensino-aprendizagem que este profissional participa, é preciso significar a prática e o entendimento da leitura para o aluno, e isto não é sinônimo de ler em voz alta, repetir palavras ou soletrá-las, mas sim, inserir este aluno no universo das imagens sonoras devidamente contextualizadas no seu contexto sócio, histórico e cultural.










Para conhecimento teórico e reflexão:

Conforme citado mais acima, a Psicopedagogia tem seu objeto de estudo e abaixo estão alguns excertos de teóricos da Psicopedagogia para reflexão e estudo:

Nádia Bossa:.
Para o Psicopedagogo, aprender é um processo que implica pôr em ações diferentes sistemas que intervêm em todo o sujeito: a rede de relações e códigos culturais e de linguagem que, desde antes do nascimento, têm lugar em cada ser humano à medida que ele se incorpora a sociedade. (1994, p. 51)

Sônia Kiguel:
o objeto central de estudo da Psicopedagogia está se estruturando em torno do processo de aprendizagem humana: seus padrões evolutivos normais e patológicos, bem como a influência do meio (família, escola e sociedade) no seu desenvolvimento. (2000, p.8)


Maria Lúcia Weiss:
a Psicopedagogia busca a melhoria das relações com a aprendizagem, assim como a melhor qualidade na construção da própria aprendizagem de alunos e educadores”. (1994, p.6).



Bossa, Kiguel e Weiss explicam como a Psicopedagogia se relaciona com o processo de ensino-aprendizagem frente ao seu objeto de pesquisa, o que complementa e dimensiona as vertentes subjetivas e relacionais que norteiam o trabalho deste profissional.




Lembrete: “A vida é um constante ato de aprendizagem”  Jean Piaget



APRENDIZAGENS LEITORAS E CULTURAIS

O aprendizado da leitura vem antes do aprendizado em sala de aula, pois o sujeito está inserido em um contexto cultural desde a sua formação como indivíduo e pressupõe-se que a leitura faça parte do contexto ao qual está inserido, assim sendo, é preciso considerar as aprendizagens miméticas (mimese) que acontecem desde o seu desenvolvimento.

Christoph Wulf, um teórico da comunicação social explica a mimese na espécie humana:

Aristóteles já considerava que a aptidão para a aprendizagem cultural e o prazer de a isso se dedicar constituíam um dom próprio da espécie humana. Essas aptidões miméticas permitem à criança, na primeira infância, participar da produção e dos processos culturais da sociedade. Na primeira infância, a criança assimila as produções materiais e simbólicas de sua comunidade cultural, as quais, conservadas dessa maneira, são transmitidas à geração seguinte. Em ampla medida, a aprendizagem cultural é aprendizagem mimética, essencial em inúmeros processos de formação e de autoformação. (Aprendizagem cultural e mimese: jogos, rituais e gestos CHRISTOPH WULF Freie Universität Berlin, Berlim, Alemanha, in: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v21n66/1413-2478-rbedu-21-66-0553.pdf)



De acordo com Wulf, a aprendizagem cultural depende da mimese, do que já existe para ser imitado, copiado e naturalmente repassado de geração a geração. Os balbucios, a fala, o diálogo e a conversação são imagens sonoras que a criança tem contato desde o ventre materno, há de se considerar a importância delas para a aquisição da leitura, ler é um ato que demanda decodificação da escrita por meio da visão, da fala, do ouvido, do sentido tátil dos dedos (no caso de crianças com deficiência no aparelho fonador e que necessitam conhecer outras linguagens, como libras). Ou seja, a aprendizagem mimética é um ato saudável que assegura a interação cultural da criança com o meio que a circunda.






Explicação complementar:


Mimese ou mimésis (em grego: hμίμησις, mimesis), é um termo crítico e filosófico que abarca uma variedade de significados, incluindo a imitação, representação, mímica, imitatio, a receptividade, o ato de se assemelhar, o ato de expressão e a apresentação do eu. Figura de retórica que se baseia no emprego do discurso direto e essencialmente na imitação do gesto, voz e palavras de outrem. Imitação verossímil da natureza que constitui, segundo a estética aristotélica e clássica, o fundamento de toda a arte.
O termo surgiu com Platão que tentou definir o vocábulo em seus diálogos, em "a mais completa discussão acerca da natureza da arte que recebemos do mundo antigo" porém não consegue um sentido fixo para a palavra. Aristóteles em “ A Arte Poética” irá tratar como temática principal de sua obra, e atribui a mimese dois significados: o da imitação e o da emulação.

acesso em 02/01/2017


No processo de aprendizagem da aquisição da leitura é preciso o olhar atento do psicopedagogo para qual sentido o aluno atribui ao texto pronto, não apenas na interpretação do texto, mas também como o aluno insere este texto no seu contexto próprio, como o aluno significa este texto.

A diferença entre “aprender” (adquirir conhecimento) ou “apreender” (assimilar mentalmente, compreender) a aprendizagem configura-se em muitos desvios de aprendizagens que poderiam ser evitados caso o olhar e fazer atento do profissional da educação fosse permeado pela sua formação e estudos acerca de importantes teóricos da educação, tais como Paulo Freire, Piaget, Emília Ferreiro, Vygotsky, Bakthin, dentre outros.

Para Jean Piaget (1896 – 1980), Psicólogo e Filósofo suíço, o processo de aquisição da aprendizagem passa por esquemas distintos que são nomeados de equilibração, assimilação e acomodação.

A equilibração é um mecanismo que está entre a assimilação e a acomodação, ou seja, seria um ponto de equilíbrio entre ambas que assegura que a criança possa interagir de forma eficiente com o meio ambiente. A equilibração propicia o conhecimento do aprendizado por meio de tentativas. Portanto, as tentativas são necessárias e o profissional da educação ou o psicopedagogo deve respeitá-la de acordo com o ritmo e aprendizagem do indivíduo, já que é muito comum que aconteçam erros e acertos enquanto a equilibração aconteça em busca de uma adaptação.

A equilibração garante que o indivíduo ao se defrontar com uma nova situação busque uma “adaptação”, que de certa maneira enfatiza aspectos de sobrevivência, física, mental ou emocional, como por exemplo, de sobrevivência física, o homem das cavernas teve que aprender a se alimentar, não apenas de carne, mas também de frutos comestíveis. É muito provável que alguns frutos comestíveis não fossem apropriados para consumo, ou seja, foi preciso consumir os frutos para “equilibrar” o que o deveria ou não ser consumido. A palavra chave para equilibração na teoria de Piaget é adaptação.

Resultado de imagem para esquema assimilação acomodação equilibração

http://psicologiad43.blogspot.com.br/2012/05/assimilacao-acomodacao-e-equilibracao.html
Conforme a imagem acima, a equilibração conforme já citado, está entre a assimilação e a acomodação e a interação e adaptação fazem parte deste processo de construção da aquisição da aprendizagem.


Interessante matéria veiculada na revista Nova Escola trata da adaptação e da equilibração:



Para Piaget, o indivíduo aprende a partir do momento que interage com seu meio. Mas será apenas a interação que garante que o ser humano aprenda? Não, de acordo com este teórico, a interação é o ponto de partida para que a aprendizagem aconteça e entre a interação com o meio e a aprendizagem efetiva, há a construção (assimilação, equilibração, acomodação) propriamente dita desta aprendizagem com o intuito de efetivá-la.

(...) o conhecimento não pode ser concebido como algo pré-determinado nem nas estruturas internas do sujeito, porquanto estas estruturas resultam de uma construção efetiva e contínua, nem nas características preexistentes do objeto, uma vez que elas só são conhecidas graças à mediação necessária dessas estruturas, e que estas ao enquadrá-las, enriquecem-nas (quando mais não seja para situá-las no conjunto dos possíveis). (Piaget, 1990, p.1)

A assimilação acontece quando o indivíduo interage com um novo conhecimento (leia aqui conhecimento como o contato com uma ideia, um objeto, um elemento da natureza, uma paisagem, ou seja, tudo aquilo em que o indivíduo entra em contato pela primeira vez) e a partir desta experiência, que é uma nova descoberta, pode haver ou não a acomodação. Assimilar um novo conhecimento não significa que o indivíduo aprendeu, para efetivar a aprendizagem é necessário acomodar o conhecimento.

Na visão dialética de Lev Semyonovitch Vygotsky (1896-1934), a aprendizagem não acontece da mesma maneira para todos, pois o aprendizado parte do social para o individual, devidamente mediado por pessoas com mais experiência (os pais, os professores) que são denominadas de mediadores por este autor.

Piaget e Vygotsky, em suas teorias, concordam que o conhecimento não é inato e empirista, para estes autores é necessário que aconteça a interação mediada com o meio para que a aprendizagem aconteça

Alguns alunos do curso perguntam acerca da importância da mediação como determinante para a aprendizagem! Sim, desde que o indivíduo tenha ação e motivação para avançar na aprendizagem.


Observação:

A aquisição da competência leitora acontece, conforme estudamos, por meio da interação da criança, do indivíduo com a sua cultura, o meio em que vive e a mediação (pessoas mais experientes ou suportes mediáticos) é fator preponderante para que a aprendizagem aconteça.



E enfim, para que a acomodação aconteça é necessário, de acordo com Piaget, que o indivíduo possa reconstituir o aprendizado na sua plenitude.

De acordo com Paulo Freire (1921 – 1997), a leitura é mediadora de sentidos entre o sujeito e o mundo que o cerca, assim sendo, como o aluno significa o texto no seu contexto próprio, leia-se aqui, cultural, vai além da interpretação mecânica que algumas vezes desmotiva o aluno leitor na prática da leitura.

No imaginário do aluno permeia a ideia de que há uma interpretação correta, o que o afasta de adentrar no texto, destrinchá-lo e inseri-lo no seu próprio universo cultural.

Assim, como um país, um estado, uma cidade, um bairro, um vilarejo tem culturas próprias, a família deste aluno tem também uma cultura singular que o diferencia de outras famílias. E o ato de ler é também um ato cultural que perpetua a historicidade pessoal.

Respeitar a leitura do aluno acerca do que ele sente e visualiza no texto é um caminho para que o psicopedagogo ajude este aluno a ser um leitor competente, pois de acordo com Paulo Freire, entender um texto escrito está intrínseca a materialidade do contexto sócio, histórico e cultural, já que este autor afirma que “a leitura do mundo antecede a leitura da palavra”.

A IMPORTÂNCIA DO ATO DE LER: AS PALAVRAS MUNDO E ARTICULAÇÕES TEÓRICAS

No ano de 1981, Paulo Freire na abertura do Congresso Brasileiro de Leitura, em Campinas, disserta sobre a leitura do mundo como propulsora do pensamento crítico, ou seja, retoma a questão de que somos cidadãos críticos e devemos atuar em consonância com o mundo a nossa volta, e é por meio da leitura, que Freire (2009, p.11) afirma que esse processo envolve “uma compreensão crítica do ato de ler, que não se esgota na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se antecipa e se alonga na inteligência do mundo”.

Falamos em textos prontos, com significados, histórias e gêneros próprios, mas e as palavras? As palavrasmundo, para Paulo Freire, seriam, mesmo isoladas da frase, mediadores de sentido sócio, histórico e culturais, e antecedem a compreensão da escrita, ou seja, da alfabetização propriamente dita.

O termo palavramundo significa que a palavra já faz parte do mundo, e o autor vai além quando afirma que por meio de uma palavra proporciona-se a leitura do mundo.




A importância do ato de ler: em três artigos que se completam
Paulo Freire

“[...] Creio desnecessário me alongar mais, aqui e agora, sobre o que tenho desenvolvido, em diferentes momentos, a propósito da complexidade deste processo. A um ponto, porém, referido várias vezes neste texto, gostaria de voltar, pela significação que tem para a compreensão critica do ato de ler e, conseqüentemente, para a proposta de alfabetização a que me consagrei. Refiro-me a que a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele. Na proposta a que me referi acima, este movimento do mundo à palavra e da palavra ao mundo está sempre presente. Movimento em que a palavra dita flui do mundo mesmo através da leitura que dele fazemos. De alguma maneira, porém, podemos ir mais longe e dizer que a leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura do mundo mas por uma certa forma de “escrevê-lo” ou de “reescrevê-lo”, quer dizer, de transformá-lo através de nossa prática consciente.
Este movimento dinâmico é um dos aspectos centrais, para mim, do processo de alfabetização. Daí que sempre tenha insistido em que as palavras com que organizar o programa da alfabetização deveriam vir do universo vocabular dos grupos populares, expressando a sua real linguagem, os seus anseios, as suas inquietações, as suas reivindicações, os seus sonhos. Deveriam vir carregadas da significação de sua experiência existencial e não da experiência do educador. A pesquisa do que chamava universo vocabular nos dava assim as palavras do Povo, grávidas de mundo. Elas nos vinham através da leitura do mundo que os grupos populares faziam. Depois, voltavam a eles, inseridas no que chamava e chamo de codificações, que são representações da realidade.A palavra tijolo, por exemplo, se inseriria numa representação pictórica, a de um grupo de pedreiros, por exemplo, construindo uma casa. Mas, antes da devolução, em forma escrita, da palavra oral dos grupos populares, a eles, para o processo de sua apreensão e não de sua memorização mecânica, costumávamos desafiar os alfabetizandos com um conjunto de situações codificadas de cuja decodificação ou “leitura” resultava a percepção critica do que é cultura, pela compreensão da prática ou do trabalho humano, transformador do mundo. No fundo, esse conjunto de representações de situações concretas possibilitava aos grupos populares uma "leitura" da "leitura” anterior do mundo, antes da leitura palavra.” . (Página 13).

In: http://educacaointegral.org.br/wp-content/uploads/2014/10/importancia_ato_ler.pdf



De acordo Mikhail Bakhtin:
As palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios. É, portanto, claro que a palavra será sempre o indicador mais sensível de todas as transformações sociais. Mesmo daquelas que apenas despontam que ainda não tomaram forma, que ainda não abriram caminho para sistemas ideológicos estruturados e bem formados.  (Bakhtin, 2002, p.41)


No viés ideológico, o ato de ler abarca duas vertentes importantes: a alfabetização e sua competência leitora e a própria leitura do mundo a que se refere Paulo Freire. Ler o mundo é sinônimo de significar as realidades sóciais, históricas e culturais que deflagram mudanças sociais importantes. Por meio da leitura, que perfaz o entendimento do mundo, pode-se criar, recriar, fazer-se presente e autor da própria vida e da historicidade cultural.

Autores da educação como Almeida (2010), concordam que a leitura promove o cidadão a ser cidadão participativo da vida em sociedade, o que possibilita que este cidadão possa ser transformador das realidades já existentes. O conceito de significados dos códigos linguísticos é importante para este autor na medida em que esses significados estão interligados. A leitura então ocorre por meio de um processo cognitivo e um processo interativo.

No processo interativo, a leitura ocorre na interação entre o leitor, o texto e o autor, onde a atividade de compreensão, decodificação e interpretação estão presentes como elementos semânticos e episódicos do texto.

Portanto, é por este meio que os sentidos do texto são construídos pelo leitor e articulados a outros significados

Solé (1998.2007, p.22) afirma acerca do ato de ler que a interação com o texto propicia a procura de significados a partir de objetivos que guiam a leitura. E complementa: “o leitor constrói o significado do texto” (idem, p.22).

Percebemos então que o aprendizado do texto não ocorre de modo linear e contínuo (recomenda-se a releitura acerca dos esquemas de Piaget: equilibração, acomodação e assimilação no item 2.2 APRENDIZAGENS LEITORAS E CULTURAIS) assim como afirma Bortoli (2002, p.45): 

[...] o ensino inicial da leitura deve garantir a interação significativa e funcional da criança com a língua escrita, como meio de construir os conhecimentos necessários para poder abordar as diferentes etapas da sua aprendizagem.  (2002, p. 45)

Lemos (2002, p. 147) ao parafrasear Bakhtin ressalta a importância de valorizar uma obra como fenômeno social, pois, contextualiza o histórico, sociológico, psicológico e estético, se assim for, não será possível o processo de esvaziamento do seu conteúdo.

Franchi (1988-2006, p.195), ao tratar do processo de alfabetização de jovens e adultos observa que a alfabetização deve ocorrer a partir do próprio texto, adequando-o para o ensino da leitura para estes aprendizes no sentido de propiciar o ato de ler a partir de contextualizações e significados detentores de sentido. De acordo com este autor, é preciso motivar a ‘leitura com significado quando se aprende a ler’, e deixar de enfatizar a ‘leitura para aprender a ler’.



“A importância do ato de Ler” de Paulo Freire.
Este livro este disponível para download no Google:

AS CONCEPÇÕES DE LEITURA E A PRÁTICA DOCENTE

A partir das pesquisas de Ferreiro e Teberosky sobre a psicogênese da língua escrita, conforme estudaremos no próximo capítulo, e do momento em que as pesquisadoras questionam o foco dos processos de alfabetização, apontando a necessidade de se passar da metodologia de ensino da língua para o processo de aprendizagem da criança, é que começam a surgir em vários contextos acadêmicos preocupações e, por conseguinte, novas pesquisas sobre como se trabalhar leitura e escrita na escola.

Também nesse momento, está em ascensão a teoria construtivista sobre a aquisição do conhecimento que se apresenta de modo revolucionário em relação à leitura e escrita.

Tudo isso gera um movimento que revoluciona as práticas de leitura e escrita na escola, apontando para possibilidades como o abandono das práticas tradicionais e das cartilhas.

Surgem muitos artigos científicos na época, com o intuito de convencer alfabetizadores a abraçarem a nova causa da alfabetização, já destituída daquela roupagem hermética, de mecanismos e estruturas a serem vencidas pela criança para se tornar “leitora”.

A teoria construtivista, com base nos estudos de Jean Piaget, enfatiza o processo de construção do conhecimento a partir da elaboração de hipóteses, pela criança, com base nos esquemas já constituídos internamente.

Para Ferreiro e Teberosky (1999/2006), portanto, a aprendizagem da criança sobre a leitura e escrita não se iniciam na escola, mas sim, muito antes, a partir das necessidades que sente em conhecer o mundo e com ele interagir. Ler e escrever não se restringem às práticas escolares.

Afirmam as pesquisadoras (p.24) que a criança está sempre buscando explicação para a forma como a linguagem se organiza e seu movimento é de formular hipóteses e buscar regularidades na linguagem.

Apontando exemplos de nosso próprio contexto, podemos dizer que quando uma criança diz “eu fazi”, classicamente estaria “errando” o uso da língua, mas, na verdade, ela está buscando a regularidade na língua; ou seja, pelo fato de dizermos “eu comi”, “eu bebi”, regularmente, para a criança, o correto seria “eu fazi”. Então, surge a pergunta: “o que quer dizer o fato de alguém se enganar sempre da mesma forma?”

É exatamente isso o que acontece com a criança: ao buscar a regularidade e por não conhecer os verbos irregulares, a criança diz “eu fazi”. E podemos notar que isso é dito pela criança sem imitar os adultos, pois dificilmente um adulto diz “eu fazi”.

A importância dessa descoberta está em podermos afirmar, seguramente, que uma criança, ao buscar a regularidade como nesse caso, certamente já distinguiu entre o radical verbal (faz) e a desinência (i) e mais: já percebeu que há uma forma “normal” de conjugar verbos.

É dessa forma que Ferreiro e Teberosky procuram provar que a aquisição da linguagem pela criança não se restringe ao mero conjunto de códigos e à conexão entre elementos isolados, mas a um processo que é muito mais complexo e que envolve a ressignificação e redefinição das partes, ao longo de sua apropriação e uso.

A LEITURA NA SALA DE AULA

A importância dessa descoberta está em podermos afirmar, seguramente, que uma criança, ao buscar a regularidade como nesse caso, certamente já distinguiu entre o radical verbal (faz) e a desinência (i) e mais: já percebeu que há uma forma “normal” de conjugar verbos.

É dessa forma que Ferreiro e Teberosky procuram provar que a aquisição da linguagem pela criança não se restringe ao mero conjunto de códigos e à conexão entre elementos isolados, mas a um processo que é muito mais complexo e que envolve a ressignificação e redefinição das partes, ao longo de sua apropriação e uso.

Autores que focalizam a questão da leitura abordam o fato de que muitas vezes, em situação de leitura em sala de aula, o foco recai nos “pseudotextos”, ou seja, naqueles elaborados puramente por meio de critérios didáticos, com frases soltas e descontextualizadas, que a criança percebe fazerem parte de um mundo irreal e não de práticas sociais reais.

Autores que focalizam a questão da leitura abordam o fato de que muitas vezes, em situação de leitura em sala de aula, o foco recai nos “pseudotextos”, ou seja, naqueles elaborados puramente por meio de critérios didáticos, com frases soltas e descontextualizadas, que a criança percebe fazerem parte de um mundo irreal e não de práticas sociais reais.

Para Foucambert (1994/1998, p.5),
Ler significa ser questionado pelo mundo e por si mesmo, significa que certas respostas podem ser encontradas na escrita, significa poder ter acesso a essa escrita, significa construir uma resposta que integra parte das novas informações ao que já se é.

Nessa direção, ainda é fundamental dizer que a leitura para ser compreendida como esse instrumento de desenvolvimento da autonomia do educando e de sua criticidade, precisa ser tratada na escola e pelos professores de forma dinamizada, por meio de diferentes práticas pedagógicas, de modo a despertar no educando o “espírito crítico”, ou seja, seu desejo de interpretar, conhecer e atuar no mundo em que vive, em direção aos fatos sociais que o cercam no cotidiano.



No livro “Folha Explica: Paulo Freire”, o professor e vice-presidente da TV Cultura Fernando José de Almeida, escreve: “Ler, segundo Freire, não é caminhar sobre as letras, mas interpretar o mundo e poder lançar sua palavra sobre ele, interferir no mundo pela ação".

No livro Pedagogia do Oprimido, Freire contribui acerca do seu projeto político–pedagógico e contribui com uma educação libertadora, reflexiva, que permite o diálogo e as leituras e releituras do mundo que nos cerca por meio das práticas educativas.


Livro: Pedagogia do Oprimido – Paulo Freire

Disponível em Google Groups:
https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=forums&srcid=MDk3NDcwNjA5OTQyODIzNTAyMjUBMDg0OTEzMjUyMTcyOTQ5NDU4MjMBc21PRkg5V2R1ZDBKATAuMQEBdjI


Assim sendo, nessa direção, ainda é fundamental dizer que a leitura, para ser compreendida como esse instrumento de desenvolvimento da autonomia do educando e de sua criticidade, precisa ser tratada na escola e pelos professores de forma dinamizada, por meio de diferentes práticas pedagógicas, de modo a despertar no educando o “espírito crítico”, ou seja, seu desejo de interpretar, conhecer e atuar no mundo em que vivem, em direção aos fatos sociais que o cercam no cotidiano.

Vale ainda destacar que o foco não está em “preparar o educando para atuar no mundo”, pois ele, seja qual for sua idade, já está atuando no mundo. Ele não está na redoma escolar, sendo preparado para ser um ser humano amanhã.

Ele já faz parte do mundo, portanto, a leitura que faz do mundo acontece no momento presente. Isso significa dizer que se pensamos os procedimentos de ensino da leitura a partir de atividades apenas de aprender como se lê, estaremos falhando nesse aspecto, pois estaremos vendo o educando como alguém que, por ser pequeno, ainda não age no mundo.

Como foco, portanto, nosso trabalho com o ensino da leitura deve ser o de auxiliar a criança ou aprendiz a ‘ver’ o mundo em que vive por meio da linguagem, da leitura e da escrita.

Para Ezequiel T. da Silva (2010): “O estatuto de criticidade da leitura pode ser conseguido através da organização de dinâmicas pedagógicas que permitam aos leitores trabalhar com três movimentos de consciência: o CONSTATAR, o COTEJAR (REFLETIR) e o TRANSFORMAR.”

De acordo com este autor temos então o leitor crítico, que constata, reflete o texto e o transforma a partir da sua singularidade, da sua história vida e de aprendizagens.

No processo de interação com um texto, o leitor executa um trabalho de atribuição de significados, a partir de sua história e de suas experiências. Esse trabalho é idiossincrático (ou próprio de cada leitor individual) mesmo porque as experiências, a origem, a história etc. dos leitores nunca são iguais – daí ser praticamente impossível que duas ou mais pessoas façam uma leitura da mesma maneira, destacando exatamente as mesmas idéias.

Essa diferenciação no processo de atribuição de significados contribui sobremaneira para a compreensão e o aprofundamento de um texto porque permite o desvelamento de um número maior de suas camadas de significação.

Em termos metodológicos, ao submeter um texto à curiosidade dos leitores, devo criar situações que lhes permitam constatar determinados significados, refletir coletivamente sobre os significados atribuídos e transformar os significados. A escola clássica chamava a estes três momentos de ler as linhas, ternas entrelinhas e ler para além das linhas.

 A fenomenologia diz que o leitor, pelo processo da constatação, verifica o sentido primeiro do texto; no cotejo ou reflexão, ele conclui que há sentidos no texto; e na transformação, ele gera mais sentidos para o texto.

Daí dizermos que, ao ler, o sujeito-leitor cria, recria, reescreve ou produz um "outro" texto, resultante da sua história, das suas experiências, do seu potencial linguístico etc.

Complementando a discussão, Silva (2010) aponta para as práticas de leitura na escola, afirmando que muitas delas tornam-se tão previsíveis para os alunos que perdem o sentido social e deixam de ser estímulo para a produção de textos e de investigação da escrita.

Isso acontece quando as práticas de sala de aula se voltam para a reprodução dos significados já cristalizados pelo professor e/ou pelo livro didático.

Magda Soares (2005, p.14), pesquisadora que tem discutido incessantemente as práticas de leitura e de escrita como práticas sociais responsáveis pela inserção e manutenção do indivíduo na cultura e na sociedade, com um papel responsável e crítico: “Um alfabetizador precisa conhecer os diferentes componentes do processo de alfabetização e do processo de letramento.”

Conhecer esses processos exige conhecer, por exemplo, as práticas e os usos sociais da língua escrita, os fundamentos do nosso sistema de escrita, as relações fonema/grafema que regem o nosso sistema alfabético, as convenções ortográficas […] exige ainda a apropriação dos conceitos de texto, de gêneros textuais […] Mas além de conhecer o objeto da aprendizagem, seus componentes linguísticos, sociais, culturais, o alfabetizador precisa também saber como é que a criança se apropria desse objeto, ter uma resposta para a pergunta: “como é que se aprende a ler e a escrever? a ler e produzir textos de diferentes gêneros?”.

Isso significa conhecer o processo de compreensão e produção de texto escrito, o processo de construção de sentido para um texto, o processo de desenvolvimento da fluência na leitura, o processo de aquisição e desenvolvimento de vocabulário, de que dependem a compreensão e a construção de sentido.

O alfabetizador tem de conhecer o objeto da aprendizagem e também o processo pelo qual se aprende esse objeto – a língua escrita.

PRÁTICAS DE LEITURA E ESCRITA PARA NEOLEITORES

Até o momento foram expostas as situações que permitem ao professor desencadear ações didáticas dirigidas à aprendizagem de seus alunos. É importante expor as situações em que o ensino não ocasiona o sucesso esperado, já que as práticas de leitura, construídas para facilitar as aprendizagens, podem criar obstáculos inerentes ao processo de compreensão dos textos.

Se ler é compreender, tudo o que for obstáculo permanente para a compreensão contribui para produzir as múltiplas facetas do fracasso da leitura, quer seja grave (não poder ler sozinho as instruções do trabalho escolar), ou escolarmente inofensivo (não chegar ao fim de uma revista ou história em quadrinhos), expõem Chartier, Clesse&Hébrard (1996).

Saber decifrar ou reconhecer palavras direta ou indiretamente não fornece, infelizmente, a chave de todos os textos escritos, mesmo quando se trata de uma competência necessária.

Ao selecionar o que queremos ler, continuam os autores, cada um de nós revela aquilo que é totalmente capaz ou incapaz de compreender em um determinado momento de sua história.

Aquele que lê com facilidade nem mesmo se dá conta da leitura, pois se apropria do texto à sua maneira, compara-o a outros textos lidos, projeta nele suas preocupações, seleciona as informações, encontra material para irritação ou satisfação.

Chartier, Clesse&Hébrard (1996, p. 114) esclarecem quando o sentido do texto permanece enigmático ou incerto:

Quando os processos para tratar simultaneamente os diferentes aspectos do texto não ocorrem automaticamente, ler requer uma forte tensão mental, o que cada um sente frente a um texto que julga difícil.

Não temos certeza de saber bem do que se trata, não chegamos a acompanhar, isto é, reter as informações úteis na memória; por não sabermos selecionar, tentamos reter tudo; consequentemente sentimos que o texto se dissipa de forma ao mesmo tempo quantitativa (as informações novas fazem com que se percam as precedentes) e qualitativa (não percebemos como elas estão organizadas e hierarquizadas).

Nestes dois casos o leitor não absorve o sentido do texto, mesmo que não se dê conta de que lê mal, pois pode atribuir suas dificuldades ao próprio texto, considerando-o aborrecido ou mal escrito ou decidir que o texto não lhe agrada (Chartier, Clesse&Hébrard, 1996).
Vamos lembrar que:
Se ler é compreender, tudo o que for obstáculo permanente para a compreensão contribui para produzir as múltiplas facetas do fracasso da leitura.

Esta situação é característica do neoleitor, assim chamado por Almeida (2010). Para este autor, “o neoleitor é um leitor que ainda não possui destreza linguística de um leitor iniciado e que, ao mesmo tempo, precisa de uma temática aliada às suas condições socioculturais”. (ALMEIDA, 2010, p. 74).

Na tentativa de desenvolver o processo de leitura algumas crianças acabam abandonando os livros, ou simplesmente, pelo fato de não conseguirem lidar com a estrutura narrativa ou mesmo por não gostarem as ilustrações ou ausência delas.

Por terem esgotado as possibilidades de apreciação relacionadas aos elementos semióticos e sensoriais, estas crianças passam a buscar uma compreensão primária da narrativa, caso já consigam decifrar algumas marcas de signos linguísticos.

O neoleitor, acentua Almeida (2010), tem sua definição levando-se em consideração sua idade e escolarização. Ele precisa ser trabalhado enquanto criança, para que não tenhamos um aluno de Educação de Jovens e Adultos lendo textos infantis porque não domina as técnicas de leitura. Também não pode ser uma criança lendo texto com temáticas adultas porque possui o domínio da decodificação.

Temáticas, temas e seleção de leituras são importantes para que crianças tenham um universo bastante rico e elaborado em determinados momentos da vida se quem lê deve identificar palavras, para compreender é preciso integrar frases em unidades superiores cada vez maiores até essa unidade que constitui o próprio texto.

Entretanto, acentuam Chartier, Clesse&Hébrard (1996), esse jamais pode ser totalmente isolado dos escritos circunvizinhos, nem do mundo no qual o leitor se move, pois eles orientam sua recepção e seu uso, isto é, a compreensão de uma certa pessoa em uma certa ocasião.

Se o ato de ler é processo pelo qual um leitor conserva e combina informações encontradas sucessivamente, quebrando mentalmente a linearidade do texto, compreender é manter junto o que estava separado e, para isso, depende da memória.

Os autores indicam três eixos com relação à iniciação à leitura e escrita (Chartier, Clesse&Hébrard, 1996, p. 163-164):

O primeiro consiste em relacionar as aprendizagens em vias de constituição às práticas sociais da escrita presentes no contexto social, em particular os escritos funcionais presentes em grande quantidade em todas as famílias e no espaço urbano.

No segundo eixo, trata-se de construir convivências culturais em torno de objetos e textos impressos, por meio de familiarização progressiva e sistemática, em situações de descobertas e de investigação dirigida, em atividades de manipulação livre, enfim, em atividades regulares em que o adulto lê e relê histórias ou textos diversos.

Em terceiro lugar, convém empregar uma pedagogia da compreensão dos escritos, apoiada na verbalização dos alunos. Graças às suas observações e perguntas perante os diferentes textos, o professor modula suas escolhas de conteúdo e suas intervenções em função das dificuldades reais do grupo, e as crianças, ao explicitarem os procedimentos que utilizam intuitivamente, chegam progressivamente ao seu domínio.

Frente ao questionamento de que nem todos os alunos conseguem, ao mesmo tempo ter sucesso em sua aprendizagem, Chartier, Clesse&Hébrard (1996), enfatizam que não se trata somente da falta de entusiasmo deste professor, mas de seus métodos de trabalho, que possam produzir o sucesso esperado. A pedagogia é aprendida e “pode ser aprendida” porque pode ser compreendida, a partir do esforço do educador de observar o desempenho de seus alunos e estar atento às intervenções adequadas para desafiá-lo a ler e escrever cada vez com maior competência.










BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Anablume Editora, 2002.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins fontes, 2000.
BOSSA, Nadia A. A Psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. RS, Artmed, 1994. Porto Alegre, Artes Médicas.
BOSSA, Nadia A. A Psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. RS, Artmed, 2000. 2ª edição. Porto Alegre, Artes Médicas.
KIGUEL, Sônia M. Normalidade X patologia no processo de aprendizagem: abordagem psicopedagógica. Psicopedagogia ABPp, 1991, Vol. 10.

WEISS, Maria Lúcia Lemme. Psicopedagogia clínica: uma visão diagnóstica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.


Links da internet

Mimese:
Aprendizagem cultural e mimese: jogos, rituais e gestos CHRISTOPH WULF Freie Universität Berlin, Berlim, Alemanha Tradução e revisão técnica de Carlos Eduardo Galvão Braga e Maria da Conceição Passeggi
http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v21n66/1413-2478-rbedu-21-66-0553.pdf

http://www.psicopedagogia.com.br/

ALMEIDA, Geraldo Peçanha. Práticas de leituras para neoleitores. 2ª Edição. Rio de Janeiro: Wak Editora. 2010.
CHARTIER, Anne-Marie; CLESSE, Christiane; HÉBRARD, Jean. Ler e escrever: entrando no mundo da escrita. Porto Alegre: Artmed. 1996.
LANDSMANN, Liliana Tolchinsky. Aprendizagem da linguagem escrita: processo evolutivos e implicações didáticas. São Paulo: editora Ática. 1993. 3ª Edição. 2002.
Bibliografia
LURIA, A. R. Pensamento e linguagem: as últimas conferências de Luria. P. A. Editora Artmed. 1986.
MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras. 2ª Edição. 2001.
MORTATTI, Maria do Rosário Longo. Os sentidos da alfabetização: São Paulo. 1876-1994. São Paulo: editora UNESP. 2000.
VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo. Editora Martins Fontes. 1989.


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O acesso à língua escrita

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