terça-feira, 19 de fevereiro de 2019


1.1 O ACESSO À LÍNGUA ESCRITA

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1.2 A ESCRITA COMO REPRESENTAÇÃO SOCIAL

A escrita é um suporte representativo do pensamento e da linguagem, é mediada por meio de símbolos que perduram no tempo, enquanto veículo de comunicação e sua produção tem o intuito de transmitir uma mensagem para um receptor ou receptores sendo significativas em qualquer época.

Na imagem mais acima a escrita cuneiforme foi descoberta pelos Sumérios e o termo é derivado da palavra “cunha” que era um tipo de “caneta” (pequena ferramenta de entalhe) que gravava símbolos em placas de cerâmica.

Até os dias atuais a representação da escrita é diferente de uma sociedade para outra, mas todas têm o mesmo objetivo: comunicar.

Ana Teberosky (2002), pesquisadora sobre alfabetização, estudou o surgimento da escrita e percebeu a importância da função social do registro mesmo nas civilizações mais antigas, onde era comum o uso de marcas gráficas. Para esta autora a transmissão gráfica tinha o objetivo de comunicar e registrar, ou seja, materializar a mensagem que permite que o emissor possa conectar-se  com o receptor, mesmo a distância.

Houve uma época na civilização mesopotâmia em que a escrita era o meio que propiciava a melhor das profissões: os escribas. Estes profissionais eram responsáveis em registrar, copiar leis, transmitir mensagens, calcular taxas, atualizar calendários, dentre outras atribuições.

A escrita desenvolveu-se enquanto linguagem através dos tempos e, assim sendo, a linguagem oral também foi afetada.

1.3  ESCRITA E ALFABETIZAÇÃO

“Ler não é decifrar, escrever não é copiar” (Emília Ferreiro)


“Fundamentalmente a aprendizagem é considerada, pela visão tradicional, como técnica. A criança aprende a técnica da cópia, do decifrado. Aprende a sonorizar um texto e a copiar formas. A minha contribuição foi encontrar uma explicação, segundo a qual, por trás da mão que pega o lápis, dos olhos que olham, dos ouvidos que escutam, há uma criança que pensa. Essa criança não pode se reduzir a um par de olhos, de ouvidos e a uma mão que pega o lápis. Ela pensa também a propósito da língua escrita e os componentes conceituais desta aprendizagem precisam ser compreendidos.” (Folha de São Paulo, Emília Ferreiro, 1985, p. 14).


No dia 03 de junho de 1985 a Folha de São Paulo veiculou entrevista realizada com a psicolinguista argentina Emília Beatriz Maria Ferreiro Schavi, conhecida como Emília Ferreiro, uma das mais renomadas educadoras do mundo quando o assunto é alfabetização. Foi aluna de Jean Piaget em Psicologia Genética, onde pode iniciar a desenvolver ampla pesquisa sobre aquisição da linguagem. Nesta entrevista a educadora aborda assuntos sobre sua pesquisa realizada no tema psicogênese da língua escrita que leva o nome do seu livro escrito em parceria com a psicolinguista espanhola Ana Teberosky.

http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/emilia-ferreiro-306969.shtml

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Emília Ferreiro
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A psicogênese da língua escrita é uma abordagem onde a criança se apropria da língua escrita por meio da interação, da construção da língua e não como método. A criança ou aprendiz teria então para estas autoras, assim como para Jean Piaget, prontidão para o aprendizado de forma ativa, assim sendo, o ritmo de aprendizado é individual, com avanços e recuos até que a própria criança ou aprendiz aprenda a escrever de forma natural.


Etimologia do termo Psicogênese:

Estudo da origem e desenvolvimento dos processos mentais ou psicológicos, da mente ou da personalidade. A origem ou o desenvolvimento desses processos mentais ou psicológicos; PSICOGENIA. Estudo das causas psíquicas geradoras de alterações no comportamento.

Por meio da psicogênese da língua escrita, o aprendiz que está sendo alfabetizado constrói significados no aprendizado da leitura e da escrita, ao mesmo tempo em que amplia seus conhecimentos sobre a linguagem. Esta aprendizagem não se inicia na escola, mas bem antes dela. 

A interação com o meio (conforme estudamos no capítulo anterior) possibilita desafios que forçam o indivíduo a construir seu aprendizado e a evoluir socialmente e culturalmente.

O ensino da escrita deve levar à criança ou aprendiz a possibilidade de construir a sua aprendizagem, ou segundo Emília Ferreiro e Ana Teberosky, que se aproprie das funções sociais da escrita por meio do contato com textos repletos de significados culturais para o meio em que ela vive.

Portanto, a mediação ensino-aprendizagem da escrita sempre deve permitir que a criança pratique a descoberta das palavras que fazem parte de seu ambiente e quando praticar a leitura dos pequenos textos, possa elaborar seus próprios registros, sempre com a mediação do seu professor ou professora.

1.4 O ENSINO DA LÍNGUA ESCRITA

Para Lev Semenovich Vygotsky (1989), a linguagem escrita é um produto cultural construído historicamente, assim sendo, vai além da aquisição da grafia das palavras. Este autor afirma que o processo de aquisição da escrita inicia-se bem antes da criança ou aprendiz ingressar na escola.

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Lev Semenovich Vygotsky
http://obviousmag.org/a_escrita_e_fala_sem_som/2015/sobre-vygotsky-psicologia-socio-hostorica-e-desenvolvimento-infantil.html.jpg?v=20160708090400

A teoria de Vygotsky sobre o desenvolvimento da aprendizagem é complexa já que as trocas com o meio propiciam que o indivíduo adquira características cognitivas, emocionais, orgânicos, psicossociais e culturais, portanto, para este autor, o ser humano é sócio-interacionista.

Esta interação postulada por Vygotsky é dialética, pois internaliza aspectos sociais e culturais e tem o poder de transformar o indivíduo e ser sujeito de mudanças importantes na sua vida, no meio em que vive, assim como pensa Paulo Freire.

Linguagem a aprendizagem são processos que estão interligados, sendo ambos necessários para o indivíduo internalizar um novo conhecimento ou transformar o que já existe.

“A psicogênese da língua escrita deslocou a questão central da alfabetização do ensino para a aprendizagem: partiu não de como se deve ensinar e sim de como, de fato, se aprende” (WEISZ, 1999/2006, p. VII-VIII).

O ensino da língua escrita deve se respaldar na questão da aprendizagem levando-se em consideração que toda criança ou aprendiz está pronta para o aprendizado, assim como Telma Weisz trata acima.

Tanto para Emilia Ferreiro, Ana Teberosky e Paulo Freire, a criança ou aprendiz não precisa ter prontidão para aprender de forma mecânica (conforme Telma Weisz, toda criança tem prontidão para o aprendizado, mas não precisa ter prontidão para o aprendizado mecânico) como o ensino tradicional enfatizou, com avaliações de percepção (saber distinguir sons e sinais) e de motricidade (ter coordenação motora, orientação espacial, noções de lateralidade). Para estes autores aprender a escrever é muito mais do que repetir padrões de escrita mecânica, mas sim, na medida em entra em contato com a escrita, desenvolve a sua motricidade, percebe a sua lateralidade, internaliza sons e sinais inerentes a este aprendizado para assim, construir a sua escrita.

Para Alexander Romanovich Luria (1986), neuropsicólogo russo, a linguagem escrita contém em sua composição níveis diferenciáveis que estão ausentes na linguagem oral. A linguagem escrita trata de uma série de processos de nível fonemático, tais como a procura de sons isolados, sua contraposição, a codificação de sons separados em letras, a combinação de sons e letras isoladas em palavras completas.

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Alexander Romanovich Luria
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Nesta vertente, a linguagem escrita possui um vocábulo mais consistente de palavras do que a linguagem oral. A produção da linguagem escrita pressupõe léxico consistente, combinação de termos gramaticais, alternativas de formação da frase e expressão verbal.

 A linguagem escrita, explica este autor, é o instrumento essencial para os processos de pensamento, incluindo, por um lado, operações conscientes, que transcorre mais lentamente do que o oral.  “Tudo isso faz da linguagem escrita um poderoso instrumento para precisar e elaborar o processo de pensamento” acentua Luria (1986, p. 171).

Para Vygotsky (1889) a aquisição da escrita, assim como sua produção, ocupa um lugar muito restrito na prática escolar em relação ao papel que deveria desempenhar no desenvolvimento sócio e cultural da criança.

Ensina-se as crianças a desenhar letras e construir palavras com elas, mas não se ensina a linguagem escrita. Enfatiza-se de tal forma a mecânica de ler o que está escrito que acaba-se obscurecendo a linguagem escrita como tal” (Vygotsky, 1989, p. 119).

Vygotsky, Freire, Luria, Ferreiro e Teberosky chamam a atenção de que o ensino da leitura e da escrita deve propiciar, além da alfabetização, a independência do indivíduo para comunicar-se por meio da linguagem escrita.

 O ensino da escrita não deve ser mecânico, deve ser natural, respeitando assim o ritmo da criança no seu aprendizado da aquisição da escrita. Não deve ser ensinado como método, mas sim como meio de descoberta da criança no mundo das palavras.  Sobre a aquisição da escrita pelas crianças, Vygotsky diz “Elas devem sentir a necessidade do ler e do escrever em seu brinquedo” (Vygotsky, 1989, p. 134).





1.5 O ENSINO DA LEITURA E DA ESCRITA: DESAFIO EM CONSONÂNCIA COM O SUCESSO DA ALFABETIZAÇÃO

Conforme estudamos, todas as crianças e adultos ainda não alfabetizados são capazes de aprender, cabe a escola e aos seus professores organizar suas aulas sempre pensando em todos os alunos.

Embora pareça simples o compromisso da escola com a aprendizagem da leitura e escrita de seus alunos, ensinar leitura e ensinar escrita não é um procedimento tão simples, pois envolve, conforme os autores estudados, fatores cognitivos, emocionais, orgânicos, psicossociais e culturais que interferem sobremaneira no aprendizado da criança ou aprendiz.

Estes fatores se não bem compreendidos por quem ensina tende a fazer da aquisição da escrita e da leitura algo meramente reprodutivo de que nada acrescenta para o aprendizado efetivo.

A criança ou aprendiz pode aprender a ler e escrever de forma mecânica, mas não saberá criar e produzir o seu próprio texto, não saberá articular uma discussão em grupo, já que para ter boas idéias e opiniões, é necessária a leitura de livros, revistas e jornais.

Paulo Freire no livro “Pedagogia Autonomia” enfatiza a responsabilidade do professor referente a aprendizagem dos educandos, mais do que ensinar, o professor tem o desafio de promover a reflexão, construção do conhecimentos, sempre em parceria com os alunos, há de haver uma coerência entre discurso e prática, o autor vai além quando inclui a afetividade no mote das práticas educativas.
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Paulo Freire
http://www.paulofreire.org/images/institucional/paulo-freire_anistiado-143g.jpg

E não é diferente em relação a alfabetização, pois conforme estudamos, o ensino da leitura e da escrita não pode ser mecânico, deve propiciar que a criança ou aprendiz construa a sua escrita e leitura sempre tendo um professor, ou mediador, conforme Vygotsky.

Mortatti (2000) reflete sobre as tentativas que foram feitas em consonância com o uma nova forma de ensinar leitura e escrita, rompendo assim com o passado do ensino tradicional, no entanto, em meio às tentativas de busca de um ensino mais moderno, notava-se que ainda havia semelhanças com o ensino antigo ou tradicional.

A autora aponta quatro momentos que explicam a sua afirmação:

1º) Método João de Deus – substituição das cartilhas tradicionais do método sintético pelo ensino da palavração – inaugura a fase científica na leitura como fator de progressão social.

2º) Disputa entre partidários do revolucionário método analítico e os que defendiam os tradicionais métodos sintéticos, incluindo a silabação, e as  cartilhas. Em 1890, uma geração de normalistas formada pela escola Normal de São Paulo defendem o método analítico, mediante a produção de cartilhas.
3º) Alfabetização sob medida: meados de 1920 - novas práticas de medidas do nível de maturidade necessária à aprendizagem da leitura e da escrita, propostas pelo Teste ABC, criado por Lourenço Filho.

4º) Revolução conceitual proposta pela pesquisadora argentina Emília Ferreiro - (final da década de 1970) – Construtivismo X defensores e atuantes das tradicionais cartilhas.

1.6 A leitura e a escrita: o método sintético, método analítico e método analítico-sintético ou misto

Características do método sintético:

1)    Surgiu no século XVIII como proposta para superar a soletração.
2)    Início ao processo de alfabetização a partir da silaba.
3)    Correspondência entre o oral e o escrito
4)    É dividido em: alfabeto ou soletração; fônico e silábico.
5)    Consiste em abordar a escrita “da parte para o todo”.
6)    Processos: fonético = letras; silábico = sílabas unidades dessprovidas de sentido e fônicos = fonemas.
7)    Aprende-se a soletrar as letras (o que chamamos de alfabético) para depois juntá-las e formar palavras; ou partimos do som das letras (o que chamamos de fônico) para, então, procurar aquilo que tem esses sons e formar palavras, textos; ou, ainda, partimos das famílias de sílabas (o que chamamos de silabação), sempre em uma ordem crescente de dificuldade, para depois juntá-las e formar palavras.
8)    Após o domínio desses elementos fragmentados é que se tornava possível à criança chegar à leitura de frases, de textos maiores.
9)    Escrever, nessa abordagem, restringia-se aos exercícios de caligrafia ou às cópias, pois se subentendia que ao copiar a criança aprendia a grafia correta das palavras e, portanto, poderia ler e entender o significado do que lia.


Características do método analítico:

1)    Método analítico: esse, por sua vez, surgiu no Brasil a partir de 1890, na Escola Normal de São Paulo, como algo revolucionário no ensino da leitura e da escrita e, sob a influência da pedagogia norte-americana da época, considerava que a forma de apreensão do mundo pela criança não era fragmentada, mas sincrética, ou seja, a visão de conjunto precede a visão fragmentada.
2)    Nessa nova perspectiva, leitura e escrita passaram a ser trabalhadas “do todo para as partes”, ou seja, iniciava-se pela palavra, ou pela frase, ou pela própria história, para então desmembrar-se esse todo até as unidades menores, as sílabas e as letras.
3)    Dividido em: palavração; sentenciação e conto ou texto.
4)    Palavração: primeiro aprende as palavras para depois separar e aprender as sílabas
5)    Sentenciação: frase ou sentença escolhida por todos os alunos, depois dividida em palavras, depois em sílabas.
6)    Conto ou texto:  texto lido pelo aluno em voz alta depois o aluno destaca palavras, sílabas, letras, com o objetivo de formar novas palavras.
7)    A ponto positivo do método analítico é que o objetivo era que o aluno entenda que ler e escrever faz parte de uma descoberta.

 Características do método analítico-sintético ou misto:

1) Surgiu para equilibrar as críticas feitas aos métodos sintéticos e aos métodos analíticos.
2)  O método analítico-sintético é o mais usado atualmente.
3) Pode ser ensinado como: palavras ou frases. Propõe-se a análise para os elementos que compõem essas estruturas lingüísticas complexas (método analítico sintético de orientação global).
4) OU: a que parte das vogais, e a associação de consoantes formando silabas, originando as palavras. É também chamado de método analítico-sintético de orientação sintética.

Mas qual o melhor método a ser utilizado para o ensino da leitura, escrita e a alfabetização? Proponho reflexão acerca do que estudamos até aqui. Reflita sobre a proposta dos teóricos estudados, releia as características de cada método e leia o texto do MEC (parágrafo abaixo).

De acordo com matéria veiculada no site da MEC, “O sucesso na alfabetização não depende do método utilizado” (<http://portal.mec.gov.br/index.php?catid=211&id=6121&option=com_content&view=article>), enfatiza que o sucesso da aquisição da leitura e da escrita ou a alfabetização pelos alunos, depende na verdade, da prontidão do professor para ensinar.

Para reflexão:

“Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais... Rubem Alves” (In: A alegria de ensinar. Rubem Alves, disponível no site <http://www.virtual.ufc.br/cursouca/modulo_3/6994779-Rubem-Alves-A-Alegria-de-Ensinar.pdf>
















FERREIRO, E. Educação e Ciência. Folha de S. Paulo, 3 jun. 1985, p. 14. IN:

LURIA, Alexander Romanovich. Pensamento e linguagem: as últimas conferências de Luria. Trad. Diana Myriam Lichtenstein e Mario Corso. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986.

LURIA, A. R. O desenvolvimento da escrita na escrita. In: VIGOTSKI, L. S.;

LURIA, A. R.; LEONTIEV, A. N. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícone, 2006.

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O acesso à língua escrita

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