1.1 O ACESSO À LÍNGUA ESCRITA

1.2 A ESCRITA COMO REPRESENTAÇÃO SOCIAL
A escrita é um suporte
representativo do pensamento e da linguagem, é mediada por meio de símbolos que
perduram no tempo, enquanto veículo de comunicação e sua produção tem o intuito
de transmitir uma mensagem para um receptor ou receptores sendo significativas
em qualquer época.
Na imagem mais acima a escrita
cuneiforme foi descoberta pelos Sumérios e o termo é derivado da palavra
“cunha” que era um tipo de “caneta” (pequena ferramenta de entalhe) que gravava
símbolos em placas de cerâmica.
Até os dias atuais a representação
da escrita é diferente de uma sociedade para outra, mas todas têm o mesmo
objetivo: comunicar.
Ana Teberosky (2002),
pesquisadora sobre alfabetização, estudou o surgimento da escrita e percebeu a
importância da função social do registro mesmo nas civilizações mais antigas,
onde era comum o uso de marcas gráficas. Para esta autora a transmissão gráfica
tinha o objetivo de comunicar e registrar, ou seja, materializar a mensagem que
permite que o emissor possa conectar-se
com o receptor, mesmo a distância.
Houve uma época na civilização
mesopotâmia em que a escrita era o meio que propiciava a melhor das profissões:
os escribas. Estes profissionais eram responsáveis em registrar, copiar leis,
transmitir mensagens, calcular taxas, atualizar calendários, dentre outras
atribuições.
A escrita desenvolveu-se enquanto
linguagem através dos tempos e, assim sendo, a linguagem oral também foi
afetada.
1.3 ESCRITA E ALFABETIZAÇÃO
“Ler não é decifrar, escrever não
é copiar” (Emília Ferreiro)
“Fundamentalmente a
aprendizagem é considerada, pela visão tradicional, como técnica. A criança
aprende a técnica da cópia, do decifrado. Aprende a sonorizar um texto e a
copiar formas. A minha contribuição foi encontrar uma explicação, segundo a
qual, por trás da mão que pega o lápis, dos olhos que olham, dos ouvidos que
escutam, há uma criança que pensa. Essa criança não pode se reduzir a um par de
olhos, de ouvidos e a uma mão que pega o lápis. Ela pensa também a propósito da
língua escrita e os componentes conceituais desta aprendizagem precisam ser
compreendidos.” (Folha de São Paulo, Emília Ferreiro, 1985, p. 14).
No dia 03 de junho de 1985 a
Folha de São Paulo veiculou entrevista realizada com a psicolinguista argentina
Emília Beatriz Maria Ferreiro Schavi, conhecida como Emília Ferreiro, uma das
mais renomadas educadoras do mundo quando o assunto é alfabetização. Foi aluna
de Jean Piaget em Psicologia Genética, onde pode iniciar a desenvolver ampla
pesquisa sobre aquisição da linguagem. Nesta entrevista a educadora aborda
assuntos sobre sua pesquisa realizada no tema psicogênese da língua escrita que
leva o nome do seu livro escrito em parceria com a psicolinguista espanhola Ana
Teberosky.
http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/emilia-ferreiro-306969.shtml

Emília Ferreiro
https://d2m2c9wovu25l7.cloudfront.net/autores/emilia-ferreiro.jpg
A psicogênese da língua escrita é
uma abordagem onde a criança se apropria da língua escrita por meio da
interação, da construção da língua e não como método. A criança ou aprendiz
teria então para estas autoras, assim como para Jean Piaget, prontidão para o
aprendizado de forma ativa, assim sendo, o ritmo de aprendizado é individual,
com avanços e recuos até que a própria criança ou aprendiz aprenda a escrever
de forma natural.
Etimologia do termo
Psicogênese:
Estudo da origem e
desenvolvimento dos processos mentais ou psicológicos, da mente ou da personalidade.
A origem ou o desenvolvimento desses processos mentais ou psicológicos;
PSICOGENIA. Estudo das causas psíquicas geradoras de alterações no
comportamento.
Por meio da psicogênese da língua
escrita, o aprendiz que está sendo alfabetizado constrói significados no
aprendizado da leitura e da escrita, ao mesmo tempo em que amplia seus
conhecimentos sobre a linguagem. Esta aprendizagem não se inicia na escola, mas
bem antes dela.
A interação com o meio (conforme
estudamos no capítulo anterior) possibilita desafios que forçam o indivíduo a
construir seu aprendizado e a evoluir socialmente e culturalmente.
O ensino da escrita deve levar à
criança ou aprendiz a possibilidade de construir a sua aprendizagem, ou segundo
Emília Ferreiro e Ana Teberosky, que se aproprie das funções sociais da escrita
por meio do contato com textos repletos de significados culturais para o meio
em que ela vive.
Portanto, a mediação ensino-aprendizagem
da escrita sempre deve permitir que a criança pratique a descoberta das
palavras que fazem parte de seu ambiente e quando praticar a leitura dos
pequenos textos, possa elaborar seus próprios registros, sempre com a mediação
do seu professor ou professora.
1.4 O ENSINO DA LÍNGUA ESCRITA
Para Lev Semenovich Vygotsky
(1989), a linguagem escrita é um produto cultural construído historicamente,
assim sendo, vai além da aquisição da grafia das palavras. Este autor afirma
que o processo de aquisição da escrita inicia-se bem antes da criança ou
aprendiz ingressar na escola.

Lev Semenovich Vygotsky
http://obviousmag.org/a_escrita_e_fala_sem_som/2015/sobre-vygotsky-psicologia-socio-hostorica-e-desenvolvimento-infantil.html.jpg?v=20160708090400
A teoria de Vygotsky sobre o
desenvolvimento da aprendizagem é complexa já que as trocas com o meio
propiciam que o indivíduo adquira características cognitivas,
emocionais, orgânicos, psicossociais e culturais, portanto, para este autor, o
ser humano é sócio-interacionista.
Esta
interação postulada por Vygotsky é dialética, pois internaliza aspectos sociais
e culturais e tem o poder de transformar o indivíduo e ser sujeito de mudanças
importantes na sua vida, no meio em que vive, assim como pensa Paulo Freire.
Linguagem
a aprendizagem são processos que estão interligados, sendo ambos necessários
para o indivíduo internalizar um novo conhecimento ou transformar o que já
existe.
“A psicogênese da língua escrita
deslocou a questão central da alfabetização do ensino para a aprendizagem:
partiu não de como se deve ensinar e sim de como, de fato, se aprende” (WEISZ,
1999/2006, p. VII-VIII).
O
ensino da língua escrita deve se respaldar na questão da aprendizagem
levando-se em consideração que toda criança ou aprendiz está pronta para o
aprendizado, assim como Telma Weisz trata acima.
Tanto para Emilia Ferreiro, Ana
Teberosky e Paulo Freire, a criança ou aprendiz não precisa ter prontidão para
aprender de forma mecânica (conforme Telma Weisz, toda criança tem prontidão
para o aprendizado, mas não precisa ter prontidão para o aprendizado mecânico)
como o ensino tradicional enfatizou, com avaliações de percepção (saber
distinguir sons e sinais) e de motricidade (ter coordenação motora, orientação
espacial, noções de lateralidade). Para estes autores aprender a escrever é
muito mais do que repetir padrões de escrita mecânica, mas sim, na medida em
entra em contato com a escrita, desenvolve a sua motricidade, percebe a sua
lateralidade, internaliza sons e sinais inerentes a este aprendizado para
assim, construir a sua escrita.
Para Alexander Romanovich Luria (1986), neuropsicólogo russo, a linguagem
escrita contém em sua composição níveis diferenciáveis que estão ausentes na
linguagem oral. A linguagem escrita trata de uma série de processos de nível
fonemático, tais como a procura de sons isolados, sua contraposição, a
codificação de sons separados em letras, a combinação de sons e letras isoladas
em palavras completas.

Alexander Romanovich Luria
http://www.resumosetrabalhos.com.br/000562300.jpg
Nesta vertente, a linguagem
escrita possui um vocábulo mais consistente de palavras do que a linguagem
oral. A produção da linguagem escrita pressupõe léxico consistente, combinação
de termos gramaticais, alternativas de formação da frase e expressão verbal.
A linguagem escrita, explica este autor, é o
instrumento essencial para os processos de pensamento, incluindo, por um lado,
operações conscientes, que transcorre mais lentamente do que o oral. “Tudo isso faz da linguagem escrita um
poderoso instrumento para precisar e elaborar o processo de pensamento” acentua
Luria (1986, p. 171).
Para Vygotsky (1889) a aquisição
da escrita, assim como sua produção, ocupa um lugar muito restrito na prática
escolar em relação ao papel que deveria desempenhar no desenvolvimento sócio e cultural
da criança.
Ensina-se as crianças a desenhar letras
e construir palavras com elas, mas não se ensina a linguagem escrita.
Enfatiza-se de tal forma a mecânica de ler o que está escrito que acaba-se obscurecendo
a linguagem escrita como tal” (Vygotsky, 1989, p. 119).
Vygotsky, Freire, Luria, Ferreiro
e Teberosky chamam a atenção de que o ensino da leitura e da escrita deve
propiciar, além da alfabetização, a independência do indivíduo para
comunicar-se por meio da linguagem escrita.
O ensino da escrita não deve ser mecânico, deve
ser natural, respeitando assim o ritmo da criança no seu aprendizado da
aquisição da escrita. Não deve ser ensinado como método, mas sim como meio de
descoberta da criança no mundo das palavras.
Sobre a aquisição da escrita pelas crianças, Vygotsky diz “Elas devem
sentir a necessidade do ler e do escrever em seu brinquedo” (Vygotsky, 1989, p.
134).
1.5 O ENSINO DA LEITURA E DA
ESCRITA: DESAFIO EM CONSONÂNCIA COM O SUCESSO DA ALFABETIZAÇÃO
Conforme estudamos, todas as
crianças e adultos ainda não alfabetizados são capazes de aprender, cabe a
escola e aos seus professores organizar suas aulas sempre pensando em todos os
alunos.
Embora pareça simples o
compromisso da escola com a aprendizagem da leitura e escrita de seus alunos,
ensinar leitura e ensinar escrita não é um procedimento tão simples, pois
envolve, conforme os autores estudados, fatores cognitivos,
emocionais, orgânicos, psicossociais e culturais que interferem sobremaneira no
aprendizado da criança ou aprendiz.
Estes
fatores se não bem compreendidos por quem ensina tende a fazer da aquisição da
escrita e da leitura algo meramente reprodutivo de que nada acrescenta para o
aprendizado efetivo.
A
criança ou aprendiz pode aprender a ler e escrever de forma mecânica, mas não
saberá criar e produzir o seu próprio texto, não saberá articular uma discussão
em grupo, já que para ter boas idéias e opiniões, é necessária a leitura de
livros, revistas e jornais.
Paulo
Freire no livro “Pedagogia Autonomia” enfatiza a responsabilidade do professor
referente a aprendizagem dos educandos, mais do que ensinar, o professor tem o
desafio de promover a reflexão, construção do conhecimentos, sempre em parceria
com os alunos, há de haver uma coerência entre discurso e prática, o autor vai
além quando inclui a afetividade no mote das práticas educativas.

Paulo Freire
http://www.paulofreire.org/images/institucional/paulo-freire_anistiado-143g.jpg
E
não é diferente em relação a alfabetização, pois conforme estudamos, o ensino
da leitura e da escrita não pode ser mecânico, deve propiciar que a criança ou
aprendiz construa a sua escrita e leitura sempre tendo um professor, ou mediador,
conforme Vygotsky.
Mortatti
(2000) reflete sobre as tentativas que foram feitas em consonância com o uma
nova forma de ensinar leitura e escrita, rompendo assim com o passado do ensino
tradicional, no entanto, em meio às tentativas de busca de um ensino mais
moderno, notava-se que ainda havia semelhanças com o ensino antigo ou
tradicional.
A
autora aponta quatro momentos que explicam a sua afirmação:
1º)
Método João de Deus – substituição das cartilhas tradicionais do método
sintético pelo ensino da palavração – inaugura a fase científica na leitura
como fator de progressão social.
2º) Disputa entre partidários do
revolucionário método analítico e os que defendiam os tradicionais métodos
sintéticos, incluindo a silabação, e as cartilhas. Em 1890, uma geração de normalistas
formada pela escola Normal de São Paulo defendem o método analítico, mediante a
produção de cartilhas.
3º) Alfabetização sob medida:
meados de 1920 - novas práticas de medidas do nível de maturidade necessária à
aprendizagem da leitura e da escrita, propostas pelo Teste ABC, criado por
Lourenço Filho.
4º) Revolução conceitual proposta
pela pesquisadora argentina Emília Ferreiro - (final da década de 1970) – Construtivismo
X defensores e atuantes das tradicionais cartilhas.
1.6 A leitura e a escrita: o método sintético, método analítico e
método analítico-sintético ou misto
Características do método
sintético:
1)
Surgiu no século XVIII como proposta para
superar a soletração.
2)
Início ao processo de alfabetização a partir da
silaba.
3)
Correspondência entre o oral e o escrito
4)
É dividido em: alfabeto ou soletração; fônico e
silábico.
5)
Consiste em abordar a escrita “da parte para o
todo”.
6)
Processos: fonético = letras; silábico = sílabas
unidades dessprovidas de sentido e fônicos = fonemas.
7)
Aprende-se a soletrar as letras (o que chamamos
de alfabético) para depois juntá-las e formar palavras; ou partimos do som das
letras (o que chamamos de fônico) para, então, procurar aquilo que tem esses
sons e formar palavras, textos; ou, ainda, partimos das famílias de sílabas (o
que chamamos de silabação), sempre em uma ordem crescente de dificuldade, para
depois juntá-las e formar palavras.
8)
Após o domínio desses elementos fragmentados é
que se tornava possível à criança chegar à leitura de frases, de textos
maiores.
9)
Escrever, nessa abordagem, restringia-se aos
exercícios de caligrafia ou às cópias, pois se subentendia que ao copiar a
criança aprendia a grafia correta das palavras e, portanto, poderia ler e
entender o significado do que lia.
Características do método
analítico:
1)
Método analítico: esse, por sua vez, surgiu no
Brasil a partir de 1890, na Escola Normal de São Paulo, como algo
revolucionário no ensino da leitura e da escrita e, sob a influência da
pedagogia norte-americana da época, considerava que a forma de apreensão do
mundo pela criança não era fragmentada, mas sincrética, ou seja, a visão de
conjunto precede a visão fragmentada.
2)
Nessa nova perspectiva, leitura e escrita
passaram a ser trabalhadas “do todo para as partes”, ou seja, iniciava-se pela
palavra, ou pela frase, ou pela própria história, para então desmembrar-se esse
todo até as unidades menores, as sílabas e as letras.
3)
Dividido em: palavração; sentenciação e conto ou
texto.
4)
Palavração: primeiro aprende as palavras para depois
separar e aprender as sílabas
5)
Sentenciação: frase ou sentença escolhida por
todos os alunos, depois dividida em palavras, depois em sílabas.
6)
Conto ou texto:
texto lido pelo aluno em voz alta depois o aluno destaca palavras,
sílabas, letras, com o objetivo de formar novas palavras.
7)
A ponto positivo do método analítico é que o
objetivo era que o aluno entenda que ler e escrever faz parte de uma
descoberta.
Características do método analítico-sintético
ou misto:
1) Surgiu para equilibrar as críticas
feitas aos métodos sintéticos e aos métodos analíticos.
2) O método analítico-sintético é o mais usado
atualmente.
3) Pode ser ensinado como: palavras
ou frases. Propõe-se a análise para os elementos que compõem essas estruturas
lingüísticas complexas (método analítico sintético de orientação global).
4) OU: a que parte das vogais, e
a associação de consoantes formando silabas, originando as palavras. É também
chamado de método analítico-sintético de orientação sintética.
Mas qual o melhor método a ser utilizado
para o ensino da leitura, escrita e a alfabetização? Proponho reflexão acerca
do que estudamos até aqui. Reflita sobre a proposta dos teóricos estudados,
releia as características de cada método e leia o texto do MEC (parágrafo
abaixo).
De acordo com matéria veiculada no site da MEC, “O sucesso
na alfabetização não depende do método utilizado” (<http://portal.mec.gov.br/index.php?catid=211&id=6121&option=com_content&view=article>),
enfatiza que o sucesso da aquisição da leitura e da escrita ou a alfabetização
pelos alunos, depende na verdade, da prontidão do professor para ensinar.
Para reflexão:
“Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma
continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da
nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais... Rubem Alves” (In: A
alegria de ensinar. Rubem Alves, disponível no site <http://www.virtual.ufc.br/cursouca/modulo_3/6994779-Rubem-Alves-A-Alegria-de-Ensinar.pdf>
FERREIRO, E.
Educação e Ciência. Folha de S. Paulo, 3 jun. 1985, p. 14. IN:
LURIA,
Alexander Romanovich. Pensamento e linguagem: as últimas conferências de Luria.
Trad. Diana Myriam Lichtenstein e Mario Corso. Porto Alegre: Artes Médicas,
1986.
LURIA, A. R. O
desenvolvimento da escrita na escrita. In: VIGOTSKI, L. S.;
LURIA, A. R.;
LEONTIEV, A. N. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícone,
2006.
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