2.4 AS CONCEPÇÕES DE LEITURA E
A PRÁTICA DOCENTE
A partir das pesquisas de
Ferreiro e Teberosky sobre a psicogênese da língua escrita, conforme estudaremos no próximo capítulo, e do momento em que as
pesquisadoras questionam o foco dos processos de alfabetização, apontando a
necessidade de se passar da metodologia de ensino da língua para o processo de
aprendizagem da criança, é que começam a surgir em vários contextos acadêmicos
preocupações e, por conseguinte, novas pesquisas sobre como se trabalhar leitura
e escrita na escola.
Também nesse momento, está em
ascensão a teoria construtivista sobre a aquisição do conhecimento que se
apresenta de modo revolucionário em relação à leitura e escrita.
Tudo isso gera um movimento que
revoluciona as práticas de leitura e escrita na escola, apontando para
possibilidades como o abandono das práticas tradicionais e das cartilhas.
Surgem muitos artigos científicos
na época, com o intuito de convencer alfabetizadores a abraçarem a nova causa
da alfabetização, já destituída daquela roupagem hermética, de mecanismos e
estruturas a serem vencidas pela criança para se tornar “leitora”.
A teoria construtivista, com base
nos estudos de Jean Piaget, enfatiza o processo de construção do conhecimento a
partir da elaboração de hipóteses, pela criança, com base nos esquemas já
constituídos internamente.
Para Ferreiro e Teberosky
(1999/2006), portanto, a aprendizagem da criança sobre a leitura e escrita não
se iniciam na escola, mas sim, muito antes, a partir das necessidades que sente
em conhecer o mundo e com ele interagir. Ler e escrever não se restringem às
práticas escolares.
Afirmam as pesquisadoras (p.24)
que a criança está sempre buscando explicação para a forma como a linguagem se
organiza e seu movimento é de formular hipóteses e buscar regularidades na
linguagem.
Apontando exemplos de nosso
próprio contexto, podemos dizer que quando uma criança diz “eu fazi”,
classicamente estaria “errando” o uso da língua, mas, na verdade, ela está
buscando a regularidade na língua; ou seja, pelo fato de dizermos “eu comi”,
“eu bebi”, regularmente, para a criança, o correto seria “eu fazi”. Então,
surge a pergunta: “o que quer dizer o fato de alguém se enganar sempre da mesma
forma?”
É exatamente isso o que acontece
com a criança: ao buscar a regularidade e por não conhecer os verbos
irregulares, a criança diz “eu fazi”. E podemos notar que isso é dito pela
criança sem imitar os adultos, pois dificilmente um adulto diz “eu fazi”.
A importância dessa descoberta
está em podermos afirmar, seguramente, que uma criança, ao buscar a
regularidade como nesse caso, certamente já distinguiu entre o radical verbal
(faz) e a desinência (i) e mais: já percebeu que há uma forma “normal” de
conjugar verbos.
É dessa forma que Ferreiro e
Teberosky procuram provar que a aquisição da linguagem pela criança não se
restringe ao mero conjunto de códigos e à conexão entre elementos isolados, mas
a um processo que é muito mais complexo e que envolve a ressignificação e
redefinição das partes, ao longo de sua apropriação e uso.
2.5 A LEITURA NA SALA DE AULA
A importância dessa descoberta
está em podermos afirmar, seguramente, que uma criança, ao buscar a
regularidade como nesse caso, certamente já distinguiu entre o radical verbal
(faz) e a desinência (i) e mais: já percebeu que há uma forma “normal” de
conjugar verbos.
É dessa forma que Ferreiro e
Teberosky procuram provar que a aquisição da linguagem pela criança não se
restringe ao mero conjunto de códigos e à conexão entre elementos isolados, mas
a um processo que é muito mais complexo e que envolve a ressignificação e
redefinição das partes, ao longo de sua apropriação e uso.
Autores que focalizam a questão
da leitura abordam o fato de que muitas vezes, em situação de leitura em sala
de aula, o foco recai nos “pseudotextos”, ou seja, naqueles elaborados
puramente por meio de critérios didáticos, com frases soltas e
descontextualizadas, que a criança percebe fazerem parte de um mundo irreal e
não de práticas sociais reais.
Autores que focalizam a questão
da leitura abordam o fato de que muitas vezes, em situação de leitura em sala
de aula, o foco recai nos “pseudotextos”, ou seja, naqueles elaborados
puramente por meio de critérios didáticos, com frases soltas e
descontextualizadas, que a criança percebe fazerem parte de um mundo irreal e
não de práticas sociais reais.
Para Foucambert (1994/1998, p.5),
Ler significa ser questionado pelo mundo
e por si mesmo, significa que certas respostas podem ser encontradas na
escrita, significa poder ter acesso a essa escrita, significa construir uma
resposta que integra parte das novas informações ao que já se é.
Nessa direção, ainda é fundamental
dizer que a leitura para ser compreendida como esse instrumento de
desenvolvimento da autonomia do educando e de sua criticidade, precisa ser
tratada na escola e pelos professores de forma dinamizada, por meio de
diferentes práticas pedagógicas, de modo a despertar no educando o “espírito
crítico”, ou seja, seu desejo de interpretar, conhecer e atuar no mundo em que
vive, em direção aos fatos sociais que o cercam no cotidiano.
No livro “Folha Explica: Paulo
Freire”, o professor e vice-presidente da TV Cultura Fernando José de Almeida,
escreve: “Ler, segundo Freire, não é caminhar sobre as letras, mas interpretar
o mundo e poder lançar sua palavra sobre ele, interferir no mundo pela
ação".
No livro Pedagogia do Oprimido, Freire contribui acerca do
seu projeto político–pedagógico e contribui com uma educação libertadora,
reflexiva, que permite o diálogo e as leituras e releituras do mundo que nos
cerca por meio das práticas educativas.
Livro: Pedagogia do
Oprimido – Paulo Freire
Disponível em Google
Groups:
https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=forums&srcid=MDk3NDcwNjA5OTQyODIzNTAyMjUBMDg0OTEzMjUyMTcyOTQ5NDU4MjMBc21PRkg5V2R1ZDBKATAuMQEBdjI
Assim sendo, nessa direção, ainda
é fundamental dizer que a leitura, para ser compreendida como esse instrumento
de desenvolvimento da autonomia do educando e de sua criticidade, precisa ser
tratada na escola e pelos professores de forma dinamizada, por meio de
diferentes práticas pedagógicas, de modo a despertar no educando o “espírito
crítico”, ou seja, seu desejo de interpretar, conhecer e atuar no mundo em que
vivem, em direção aos fatos sociais que o cercam no cotidiano.
Vale ainda destacar que o foco
não está em “preparar o educando para atuar no mundo”, pois ele, seja qual for
sua idade, já está atuando no mundo. Ele não está na redoma escolar, sendo
preparado para ser um ser humano amanhã.
Ele já faz parte do mundo, portanto,
a leitura que faz do mundo acontece no momento presente. Isso significa dizer
que se pensamos os procedimentos de ensino da leitura a partir de atividades
apenas de aprender como se lê, estaremos falhando nesse aspecto, pois estaremos
vendo o educando como alguém que, por ser pequeno, ainda não age no mundo.
Como foco, portanto, nosso
trabalho com o ensino da leitura deve ser o de auxiliar a criança ou aprendiz a
‘ver’ o mundo em que vive por meio da linguagem, da leitura e da escrita.
Para Ezequiel T. da Silva (2010):
“O estatuto de criticidade da leitura pode ser conseguido através da
organização de dinâmicas pedagógicas que permitam aos leitores trabalhar com
três movimentos de consciência: o CONSTATAR, o COTEJAR (REFLETIR) e o
TRANSFORMAR.”
http://www.seer.ufs.br/index.php/interdisciplinar/article/viewFile/1102/940
De acordo com este autor temos
então o leitor crítico, que constata, reflete o texto e o transforma a partir
da sua singularidade, da sua história vida e de aprendizagens.
No processo de interação com um
texto, o leitor executa um trabalho de atribuição de significados, a partir de
sua história e de suas experiências. Esse trabalho é idiossincrático (ou
próprio de cada leitor individual) mesmo porque as experiências, a origem, a história
etc. dos leitores nunca são iguais – daí ser praticamente impossível que duas
ou mais pessoas façam uma leitura da mesma maneira, destacando exatamente as
mesmas idéias.
Essa diferenciação no processo de
atribuição de significados contribui sobremaneira para a compreensão e o
aprofundamento de um texto porque permite o desvelamento de um número maior de
suas camadas de significação.
Em termos metodológicos, ao
submeter um texto à curiosidade dos leitores, devo criar situações que lhes
permitam constatar determinados significados, refletir coletivamente sobre
os significados atribuídos e transformar os significados. A escola clássica
chamava a estes três momentos de ler as linhas, ternas entrelinhas e ler
para além das linhas.
A fenomenologia diz que o leitor, pelo
processo da constatação, verifica o sentido primeiro do texto; no cotejo ou
reflexão, ele conclui que há sentidos no texto; e na transformação, ele
gera mais sentidos para o texto.
Daí dizermos que, ao ler, o
sujeito-leitor cria, recria, reescreve ou produz um "outro" texto,
resultante da sua história, das suas experiências, do seu potencial linguístico
etc.
Complementando a discussão, Silva
(2010) aponta para as práticas de leitura na escola, afirmando que muitas delas
tornam-se tão previsíveis para os alunos que perdem o sentido social e deixam
de ser estímulo para a produção de textos e de investigação da escrita.
Isso acontece quando as práticas
de sala de aula se voltam para a reprodução dos significados já cristalizados
pelo professor e/ou pelo livro didático.
Magda Soares (2005, p.14), pesquisadora que
tem discutido incessantemente as práticas de leitura e de escrita como práticas
sociais responsáveis pela inserção e manutenção do indivíduo na cultura e na
sociedade, com um papel responsável e crítico: “Um alfabetizador precisa
conhecer os diferentes componentes do processo de alfabetização e do processo
de letramento.”
Conhecer esses processos exige conhecer, por
exemplo, as práticas e os usos sociais da língua escrita, os fundamentos do
nosso sistema de escrita, as relações fonema/grafema que regem o nosso sistema
alfabético, as convenções ortográficas […] exige ainda a apropriação dos
conceitos de texto, de gêneros textuais […] Mas além de conhecer o objeto da
aprendizagem, seus componentes linguísticos, sociais, culturais, o
alfabetizador precisa também saber como é que a criança se apropria desse
objeto, ter uma resposta para a pergunta: “como é que se aprende a ler e a
escrever? a ler e produzir textos de diferentes gêneros?”.
Isso significa conhecer o processo de
compreensão e produção de texto escrito, o processo de construção de sentido
para um texto, o processo de desenvolvimento da fluência na leitura, o processo
de aquisição e desenvolvimento de vocabulário, de que dependem a compreensão e
a construção de sentido.
O alfabetizador tem de conhecer o objeto da
aprendizagem e também o processo pelo qual se aprende esse objeto – a língua
escrita.
2.6 PRÁTICAS
DE LEITURA E ESCRITA PARA NEOLEITORES
Até o momento foram expostas as situações que
permitem ao professor desencadear ações didáticas dirigidas à aprendizagem de
seus alunos. É importante expor as situações em que o ensino não ocasiona o
sucesso esperado, já que as práticas de leitura, construídas para facilitar as
aprendizagens, podem criar obstáculos inerentes ao processo de compreensão dos
textos.
Se ler é compreender, tudo o que for
obstáculo permanente para a compreensão contribui para produzir as múltiplas
facetas do fracasso da leitura, quer seja grave (não poder ler sozinho as
instruções do trabalho escolar), ou escolarmente inofensivo (não chegar ao fim
de uma revista ou história em quadrinhos), expõem Chartier, Clesse&Hébrard
(1996).
Saber decifrar ou reconhecer palavras direta
ou indiretamente não fornece, infelizmente, a chave de todos os textos
escritos, mesmo quando se trata de uma competência necessária.
Ao selecionar o que queremos ler, continuam
os autores, cada um de nós revela aquilo que é totalmente capaz ou incapaz de
compreender em um determinado momento de sua história.
Aquele que lê com facilidade nem mesmo se dá
conta da leitura, pois se apropria do texto à sua maneira, compara-o a outros
textos lidos, projeta nele suas preocupações, seleciona as informações,
encontra material para irritação ou satisfação.
Chartier, Clesse&Hébrard (1996, p. 114)
esclarecem quando o sentido do texto permanece enigmático ou incerto:
Quando os processos para tratar
simultaneamente os diferentes aspectos do texto não ocorrem automaticamente,
ler requer uma forte tensão mental, o que cada um sente frente a um texto que
julga difícil.
Não temos certeza de saber bem do que se
trata, não chegamos a acompanhar, isto é, reter as informações úteis na
memória; por não sabermos selecionar, tentamos reter tudo; consequentemente
sentimos que o texto se dissipa de forma ao mesmo tempo quantitativa (as
informações novas fazem com que se percam as precedentes) e qualitativa (não
percebemos como elas estão organizadas e hierarquizadas).
Nestes dois casos o leitor não absorve o
sentido do texto, mesmo que não se dê conta de que lê mal, pois pode atribuir
suas dificuldades ao próprio texto, considerando-o aborrecido ou mal escrito ou
decidir que o texto não lhe agrada (Chartier, Clesse&Hébrard, 1996).
Vamos lembrar que:
Se ler
é compreender, tudo o que for obstáculo permanente para a compreensão contribui
para produzir as múltiplas facetas do fracasso da leitura.
Esta situação é característica do neoleitor,
assim chamado por Almeida (2010). Para este autor, “o neoleitor é um leitor que
ainda não possui destreza linguística de um leitor iniciado e que, ao mesmo
tempo, precisa de uma temática aliada às suas condições socioculturais”.
(ALMEIDA, 2010, p. 74).
Na tentativa de desenvolver o processo de
leitura algumas crianças acabam abandonando os livros, ou simplesmente, pelo
fato de não conseguirem lidar com a estrutura narrativa ou mesmo por não
gostarem as ilustrações ou ausência delas.
Por terem esgotado as possibilidades de
apreciação relacionadas aos elementos semióticos e sensoriais, estas crianças
passam a buscar uma compreensão primária da narrativa, caso já consigam
decifrar algumas marcas de signos linguísticos.
O neoleitor, acentua Almeida (2010), tem sua
definição levando-se em consideração sua idade e escolarização. Ele precisa ser
trabalhado enquanto criança, para que não tenhamos um aluno de Educação de
Jovens e Adultos lendo textos infantis porque não domina as técnicas de
leitura. Também não pode ser uma criança lendo texto com temáticas adultas
porque possui o domínio da decodificação.
Temáticas, temas e seleção de leituras são
importantes para que crianças tenham um universo bastante rico e elaborado em
determinados momentos da vida se quem lê deve identificar palavras, para
compreender é preciso integrar frases em unidades superiores cada vez maiores
até essa unidade que constitui o próprio texto.
Entretanto, acentuam Chartier,
Clesse&Hébrard (1996), esse jamais pode ser totalmente isolado dos escritos
circunvizinhos, nem do mundo no qual o leitor se move, pois eles orientam sua
recepção e seu uso, isto é, a compreensão de uma certa pessoa em uma certa
ocasião.
Se o ato de ler é processo pelo qual um
leitor conserva e combina informações encontradas sucessivamente, quebrando
mentalmente a linearidade do texto, compreender é manter junto o que estava
separado e, para isso, depende da memória.
Os autores indicam três eixos com relação à
iniciação à leitura e escrita (Chartier, Clesse&Hébrard, 1996, p. 163-164):
O primeiro consiste em relacionar as
aprendizagens em vias de constituição às práticas sociais da escrita presentes
no contexto social, em particular os escritos funcionais presentes em grande
quantidade em todas as famílias e no espaço urbano.
No segundo eixo, trata-se de construir
convivências culturais em torno de objetos e textos impressos, por meio de
familiarização progressiva e sistemática, em situações de descobertas e de
investigação dirigida, em atividades de manipulação livre, enfim, em atividades
regulares em que o adulto lê e relê histórias ou textos diversos.
Em terceiro lugar, convém empregar uma
pedagogia da compreensão dos escritos, apoiada na verbalização dos alunos.
Graças às suas observações e perguntas perante os diferentes textos, o
professor modula suas escolhas de conteúdo e suas intervenções em função das
dificuldades reais do grupo, e as crianças, ao explicitarem os procedimentos
que utilizam intuitivamente, chegam progressivamente ao seu domínio.
Frente ao questionamento de que nem todos os
alunos conseguem, ao mesmo tempo, ter sucesso em sua aprendizagem, Chartier,
Clesse&Hébrard (1996), enfatizam que não se trata somente da falta de
entusiasmo deste professor, mas de seus métodos de trabalho, que possam
produzir o sucesso esperado. A pedagogia é aprendida e pode ser aprendida
porque pode ser compreendida, a partir do esforço do educador de observar o
desempenho de seus alunos e estar atento às intervenções adequadas para
desafiá-lo a ler e escrever cada vez com maior competência.
ALMEIDA, Geraldo Peçanha. Práticas de
leituras para neoleitores. 2ª Edição. Rio de Janeiro: Wak Editora. 2010.
CHARTIER, Anne-Marie; CLESSE, Christiane;
HÉBRARD, Jean. Ler e escrever: entrando no mundo da escrita. Porto
Alegre: Artmed. 1996.
LANDSMANN, Liliana Tolchinsky.
Aprendizagem da linguagem escrita: processo evolutivos e implicações didáticas.
São Paulo: editora Ática. 1993. 3ª Edição. 2002.
Bibliografia
LURIA, A. R. Pensamento e linguagem: as
últimas conferências de Luria. P. A. Editora Artmed. 1986.
MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura.
São Paulo: Companhia das Letras. 2ª Edição. 2001.
MORTATTI, Maria do Rosário Longo. Os
sentidos da alfabetização: São Paulo. 1876-1994. São Paulo: editora UNESP.
2000.
VYGOTSKY, L. S. A formação social da
mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo.
Editora Martins Fontes. 1989.
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