3.1 ALFABETIZAÇÃO, LETRAMENTO
E ALFABETISMO FUNCIONAL
Alfabetização é o desenvolvimento
das habilidades básicas que permitem a criança ou aprendiz, o aprendizado da
escrita e da leitura. Envolve aspectos motores, perceptivos, de reconhecimento
das letras e seus sons, do envolvimento das palavras no texto.
Letramento é a habilidade para
reconhecer e se apropriar da escrita e da leitura com competência em diversos
contextos e textos sócio-culturais.
O letramento não é especificado
no próprio termo, pois autores da área da educação têm diferentes explicações,
como por exemplo, Magda Soares (1998), explica que a criança, mesmo ainda não
alfabetizada pode se apropriar do entendimento da leitura e da escrita.
Soares exemplifica com a criança
que não é alfabetizada, mas se apropria da leitura e da escrita ao escutar as
histórias que a mãe conta todas as noites. A própria convivência com as
práticas de leitura e escrita permite que a criança seja letrada.
Para Luiz Antônio Marcuschi
(2005), o indivíduo pode ser letrado mesmo ser ter ainda frequentado a escola,
assim como disserta Soares, sendo assim existe um letramento espontâneo.
Para este autor, letramento e
alfabetização são distintos, pois a alfabetização apresenta o domínio formal da
escrita e da leitura e o letramento às práticas sociais da escrita e,
acrescenta de que há vários letramentos, desde a apropriação mais básica da
escrita e da leitura até uma apropriação mais aprimorada (assim como o
letramento das pessoas com formação universitária).
Levando-se em consideração a
espontaneidade na questão do letramento, o modelo autônomo proposto por Brian
Street (1984) aponta a característica do letramento como apropriação
individual, pois o foco recai no indivíduo e não em um contexto social
específico.
http://www.ufjf.br/praticasdelinguagem/files/2016/08/115-120-Letramentos-Sociais.pdf
Street ainda explica o modelo
ideológico, pois acredita que o aprendizado da escrita deve se respaldar em
práticas do mundo real, ou seja, sociais, letradas enquanto produto do
discurso, da cultura e da história. No livro “Letramentos sociais: abordagens
críticas do letramento no desenvolvimento, na etnografia e na educação” este
autor defende explicitamente o modelo ideológico.
Sendo a escrita um processo, no
modelo ideológico, o foco recai na dimensão social do letramento e em seu
potencial para transformar práticas sociais injustas. Segundo Roxane Rojo
(2000, s.p.):
Nesse modelo, as práticas de letramento
ocorrem em contextos específicos e são caracterizadas como resultantes da
cultura e das estruturas de poder vigentes nesses contextos e instituições.
Vale lembrar que em cada grupo distinto, há diferentes formas cotidianas de uso
da leitura e da escrita e da linguagem oral.
E mais: nesse modelo ideológico,
letramento é entendido como uma prática social que corresponde àquilo que as
pessoas fazem com as habilidades e conhecimentos de leitura e escrita, em um
dado contexto. Nessa direção, podemos considerar como eventos de letramento
todas as situações relacionadas à língua escrita que colocam os participantes
em interação seja face a face ou não, por meio do texto escrito (Tfouni, 2006,
p.105).
Afirma Leda Verdiani Tfouni
(2006), sobre o letramento: alfabetização é um processo que focaliza a
aquisição da escrita por um indivíduo ou um grupo de indivíduos, enquanto o
letramento focaliza os aspectos sócio-históricos da aquisição da escrita em uma
sociedade.
O letramento se preocupa com o
social, pois tem por objetivo investigar não somente quem é alfabetizado, mas
também quem não é alfabetizado.
São questões fundamentais para o
letramento, por exemplo, as levantadas por Tfouni (2006, p, 20-21):
1) Quais mudanças sociais e
discursivas ocorrem em uma sociedade quando ela se torna letrada?
2) Grupos sociais não-alfabetizados
que vivem em uma sociedade letrada podem ser caracterizados do mesmo modo que
aqueles que vivem em sociedades ‘iletradas’?
3) Como estudar e caracterizar
grupos não-alfabetizados cujo conhecimento, modos de produção e cultura estão
perpassados pelos valores de uma sociedade letrada?
Os avanços nas pesquisas sobre
letramento apontam, segundo Rojo (2000), para o fato de que “letramento é
definido hoje como um conjunto de práticas sociais ligadas, de uma ou de outra
maneira, à escrita, em contextos específicos, para objetivos específicos”.
O que a autora quer nos dizer é
que diferentes contextos exigem diferentes práticas de letramento e, em se
tratando da escola, as práticas letradas são apenas um tipo de prática social
de letramento que, de certa forma, constituem um tipo dominante.
Isso é o mesmo que dizer que por
meio dessas práticas de letramento, o aluno acaba desenvolvendo algumas das
habilidades necessárias para a leitura de mundo, e outras não.
Teria, portanto, de ser exposto a
outros contextos nos quais entraria em contato com outras práticas de
letramento.
Na concepção vygotskyana de
construção da leitura e da escrita, podemos afirmar que pensar no letramento
significa pensar que histórico-socialmente, e escrita como instrumento transformou-se
e assumiu um novo lugar social.
Letramento é produto da
sociohistória, pois é exatamente por conta de todo o desenvolvimento na
sociedade que as necessidades em relação à escrita foram sendo ressignificadas.
Sabemos que existem situações às
quais exigem do sujeito muito mais do que o conhecimento dos códigos da
escrita, mas uma profunda interpretação desses códigos.
Essa interpretação passa pelo
viés dos aspectos sócio-político-culturais e, portanto, requer posturas
críticas desse ser humano. Tais posturas, podem ser desenvolvidas por meio do
trabalho realizado na escola, com a leitura de mundo e de situações
significativas e reais para a criança.
Nesse sentido, as diferentes
práticas pedagógicas são nosso alvo. Como fazer delas práticas que auxiliem o
educando a tornar-se letrado? Essa discussão é fortalecida nas pesquisas e
conclusões de Rojo (2008, p.585-6), como podemos ver, a seguir:
Um dos objetivos principais da escola é
justamente possibilitar que seus alunos possam participar das várias práticas
sociais que se utilizam da leitura e da escrita (letramentos) na vida da
cidade, de maneira ética, crítica e democrática.
Na verdade, quando falamos das
práticas didático-pedagógicas de letramento em sala de aula, estamos falando
tanto da forma como se organizam os materiais disponibilizados nessas práticas,
quanto da forma como se organiza a mediação do professor.
É na forma de mediação, aquela
que impulsiona o aluno à investigação do texto no sentido de atribuir-lhe
sentido social, e, portanto, nas posturas do professor frente aos
questionamentos, interlocuções em sala de aula, que está, potencialmente, a
possibilidade de transformar uma aula em uma prática de letramento.
É na forma de mediação, aquela
que impulsiona o aluno à investigação do texto no sentido de atribuir-lhe
sentido social, e, portanto, nas posturas do professor frente aos
questionamentos, interlocuções em sala de aula, que está, potencialmente, a
possibilidade de transformar uma aula em uma prática de letramento.
3.2 LETRAMENTO - ALFABETIZAÇÃO
– ESCOLARIZAÇÃO
Afirma Mortatti (2004) que o
letramento está relacionado à língua escrita e à forma como ela se insere nas
sociedades letradas, ou seja, grafocêntricas.
O que se quer dizer com isso é
que uma sociedade letrada está organizada a partir de um sistema de escrita que
tem um papel extremamente importante na vida das pessoas e na forma como elas
se relacionam em todo tipo de evento social.
Nesse sentido, é possível afirmar
que a cultura dessa sociedade é transmitida por meio da linguagem escrita e que
o texto escrito e todas as formas de escrever e ler são considerados como as
mais relevantes formas de comunicação entre as pessoas, superando as formas de
comunicação oral (que seriam mais relevantes justamente em sociedades ágrafas –
a-letradas ou pré-letradas).
Tem sido uma marca forte nas
discussões sobre ler e escrever em sociedades letradas, considerar que cabe à
escola toda a responsabilidade sobre o acesso ao mundo da escrita.
A isso, tem-se chamado escolarização e
aí reside a ideia de que a alfabetização (aprendizado das habilidades
básicas para o domínio da leitura e da escrita) e o letramento
(conhecimento das diversas formas de usar eficazmente a leitura e a escrita nas
práticas sociais) são indissociáveis
Segundo Rojo (2000, s.p.), pensar
a relação letramento, escolarização e alfabetização só faz sentido se
considerarmos o seguinte:
Mesmo nesta visão simplista, não cabe
perguntar, numa estrutura alternativa: “letramento ou escola”. Escola é
letramento e dele decorre, quer suas práticas sejam orais ou escritas; quer
haja ou não texto escrito sendo utilizado na sala de aula. Logo, só é admitida
uma estrutura adjetiva: “letramento escolar”.
Ou seja, não cabe investigar qual
é a “variável dependente” – escola ou letramento – mas cabe enfocar o
funcionamento e a tecitura particular do letramento na escola e seus processos
e produtos.
Logo, a partir desta abordagem do
letramento, cabe perguntar: Como funciona discursivamente o letramento escolar?
Além de alfabetizar e de ensinar a ler e escrever, que capacidades letradas o
letramento escolar constrói?
O que se constata, na verdade, e
que assume importante papel nessa relação apontada entre escolarização, é o
fato de que todo e qualquer evento e/ou prática de letramento, ao assumir-se
como objeto de ensino-aprendizagem, submete-se a uma organização pedagógica
para alcançar um objetivo escolarizado.
Isso é o que Jung (2007, p.114)
chama de “pedagogização do letramento”, ou seja, “um processo no qual
práticas sociais de letramento se tornam, numa sequência ideal e
predeterminada, práticas de letramento a ensinar, posteriormente, ensinadas, e,
finalmente, adquiridas”.
O que a autora quer dizer com
isso é que o letramento, assim visto, passa a fazer parte de uma cultura
escolar que normatiza e didatiza as práticas sociais de leitura e escrita,
correndo o risco de perder seu significado primeiro que é o do desenvolvimento
da autonomia e da criticidade do educando.
Para Jung (2007, p.116),
Não se pode, portanto, considerar a
alfabetização como um pré-requisito para o letramento, nem reduzir letramento a
um conceito escolarizado. Apesar dos problemas envolvidos, porém, não se pode
também separar radicalmente o letramento escolar do letramento social, porque,
sendo ambos partes do mesmo contexto social, hipoteticamente as experiências de
leitura e escrita na escola acabam por habilitar a participação em experiências
extra-escolares de letramento. Assim como também não se pode separar
radicalmente o letramento da alfabetização, da escolarização e nem, tampouco,
da educação.
O grande desafio do ensino
socioconstrutivista, para Colello (2012), é considerar o ponto de vista de cada
aluno, entender como os indivíduos interpretam as informações e lidam com elas,
como assimilam e valorizam as experiências vividas dentro e fora da escola e,
por fim, como evoluem nas diferentes competências para ler, escrever,
compreender, interpretar, compor etc.
Na progressão do fazer e refazer,
construir e reconstruir o jovem aprendiz é sempre convidado a considerar
diversos pontos de vista e novas possibilidades de produção ou interpretação, a
partir das diferentes esferas da construção a língua escrita, citados por
Collelo (2012, p. 29-31), tais como:
- Construção e fortalecimento do
universo simbólico na prática de múltiplos meios de representação incluindo
jogos simbólicos, a fala, a escrita e notações de campos específicos
(matemática, geografia, artes etc.).
- Relação entre a oralidade e a
escrita, que pressupõe o reconhecimento dessas diferentes formas de linguagem e
suas variações.
- Usos da língua escrita nos seus
múltiplos papeis sociais como a documentação, a comunicação, a informação, a
prescrição, o registro auxiliar da memória, a expressão de sentimentos etc.
- Funcionamento do sistema,
processo cognitivo que se inicia na descoberta do sistema de escrita (as
letras, a natureza fonológica da língua) ao entendimento de seu caráter
convencional (assimilação de regras e arbitrariedades da língua).
- Relação entre fonema e grafia,
tendo em vista o modo complexo como as letras representam os sons e também o
uso de símbolos ou abreviaturas.
- Relação todos-partes na escrita
e a sistematização de suas variações quantitativas e qualitativas, isto é,
compreensão de que a escrita é um todo constituído por unidades. Nesse processo
a criança lida com a hipótese da quantidade (com quantas letras se escreve) e
de qualidade (hipóteses pré-silábica, silábica, silábico-alfabética, alfabética
e ortográfica).
- Relações entre leitura e
escrita o que pressupõe a compreensão dos atos associados à leitura e à
escrita.
- Relações entre imagens e texto
– desenhar e escrever, processo cognitivo distinguindo os atos de desenhar e
escrever descobre as ligações possíveis entre a imagem e o texto.
- Conhecimento dos gêneros
textuais, isto é, o contato e a progressiva familiaridade com diferentes tipos
textuais pelo reconhecimento de suas características e de suas funções sociais.
- Conhecimento dos portadores de
texto nas suas relações com funções, gêneros, estilos, componentes visuais e
composição estética.
Percebe-se assim que, ao
considerar os processos cognitivos envolvidos na construção da língua escrita,
busca-se sintonia na relação ensino-aprendizagem, tendo o aluno como centro da
prática pedagógica.
Texto para reflexão: o
texto “Letramento de verdade”, veiculado pela revista Nova Escola. Neste texto,
você aluno, pode identificar e refletir sobre as ideias de todos os autores
estudados e principalmente o conceito de letramento e alfabetização na prática.
3.3 ALFABETISMO FUNCIONAL
O alfabetismo funcional é um termo
usado para designar desvios na aprendizagem referente ao uso da linguagem,
escrita e cálculos matemáticos. Esses
desvios não são caracterizados como problemas de aprendizagem, mas o resultado
de um estudo deficiente no decorrer dos anos escolares.
O
indivíduo tem as capacidades, leitora e escritora, comprometidas, pois não
compreende os sentidos que o texto revela; em matemática, cálculos simples não
são utilizados no dia a dia, a não ser com o uso de uma calculadora; portanto,
o uso da leitura, escrita e cálculos básicos para fins pragmáticos não podem
ser estabelecidos no contexto cotidiano.
O termo alfabetismo funcional
surgiu na década de 1930 nos EUA quando se percebeu que instruções básicas para
a realização de tarefas militares não eram entendidas (Castell, Luke &
MacLennan 1986).
Em 1978 o termo foi amplamente
divulgado pela UNESCO com o objetivo de influenciar países membros nos sentido
de modificar as suas políticas educacionais em razão da erradicação do
analfabetismo.
No Brasil, no ano de 2001, foi
criado por organizações não governamentais, a Ação Educativa e o Instituto
Paulo Montenegro, o Inaf - Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional, este
indicador mede as habilidades dos estudantes e da população por meio de testes.
O objetivo do INAF é criar um debate público com o intuito de compreensão do
alfabetismo funcional em consonância com melhorias e reformulação de políticas
educacionais.
É preciso entender o alfabetismo
funcional para que ocorra o letramento, pois a alfabetização habilita que o
indivíduo seja competente nas capacidades de leitura e da escrita.
Texto para reflexão
“Para além da nossa
experiência cotidiana das salas de aula e da impressão de desinteresse,
desânimo e resistência dos alunos das camadas populares em relação a propostas
de ensino e letramento oferecidas pelas práticas escolares, resultados
concretos e mensuráveis como esses configuram um quadro de ineficácia das
práticas didáticas que nos leva a perguntar: como alunos de relativamente longa
duração de escolaridade puderam desenvolver capacidades leitoras tão limitadas?
(...)” (Roxane Rojo p.35)
O site do INAF (http://www.ipm.org.br/pt-br/programas/inaf/relatoriosinafbrasil/Paginas/inaf2011_2012.aspx)
divulga as estatísticas reveladas e entrevistas domiciliares em zonas rurais e
urbanas onde são aplicadas provas simples de português e matemática em indivíduos
com a idade entre 15 e 64 anos.
No dia 05/02/2012 o INAF divulgou:
“O percentual da população alfabetizada funcionalmente foi de 61% em 2001 para
73% em 2011, mas apenas um em cada 4 brasileiros domina plenamente as
habilidades de leitura, escrita e matemática”.
O site informa ainda, que os
índices melhoraram nos últimos dez anos, no entanto, apenas 1 de 4 brasileiros
domina a habilidade requerida para não ser incluído no grupo do alfabetismo
funcional.
O Ministério da Educação e
Cultura (MEC) aplica provas, por meio do INEP (Instituto Nacional de Estudos e
Pesquisas Educacionais) em alunos regularmente matriculados no sistema de
ensino com o objetivo de verificar a aprendizagem para formular e implementar
políticas públicas para a área educacional.
As provas aplicadas são
(informações retiradas na íntegra do site portal.mec.gov.br):
- Prova
Brasil - A Prova Brasil é aplicada censitariamente aos alunos de 5º e
9º anos do ensino fundamental público, nas redes estaduais, municipais e
federais, de área rural e urbana, em escolas que tenham no mínimo 20 alunos matriculados
na série avaliada. A Prova Brasil oferece resultados por escola, município,
Unidade da Federação e país que são utilizados no cálculo do Ideb.
Provinha Brasil -
A Provinha Brasil é uma avaliação diagnóstica do nível de alfabetização das
crianças matriculadas no segundo ano de escolarização das escolas públicas
brasileiras. Essa avaliação acontece em duas etapas, uma no início e a outra ao
término do ano letivo. A aplicação em períodos distintos possibilita aos
professores e gestores educacionais a realização de um diagnóstico mais preciso
que permite conhecer o que foi agregado na aprendizagem das crianças, em termos
de habilidades de leitura dentro do período avaliado.
3.4 O PSICOPEDAGOGO: CONTRIBUIÇÕES PARA O LETRAMENTO
O trabalho do psicopedagogo em
atendimento personalizado ou no ambiente escolar é relevante para o letramento,
pois sua função permite a partir do seu objetivo de pesquisa, como o indivíduo
aprende, contribuir para crianças e indivíduos que apresentem dificuldades de
aprendizagem.
A Psicopedagogia no ambiente
escolar propicia a integração do ensino e da aprendizagem no âmbito curricular
e social do educando, e o professor deve ser incluído na intervenção
psicopedagógica com o objetivo de ser informado e orientado quando necessário,
pois faz parte do processo de desenvolvimento cognitivo e de integração social
do aluno.
A boa alfabetização e, em
conseqüência o letramento, são fenômenos provenientes da aprendizagem e, a Psicopedagogia
gera no ambiente escolar, reflexões que promovem mudanças significativas na
dinâmica do ensino e da aprendizagem.
A dinâmica do ensino e da aprendizagem revela no seu entorno, histórias,
de seus alunos, educadores e outros profissionais que interferem na construção,
tanto de conhecimento, como de visão de mundo de todos esses atores. É preciso
que o educando, sendo a parte mais sensível, receba os devidos cuidados psicopedagógicos
quando os desvios de aprendizagem perpassem a fronteira do não aprender, do não
conviver.
A escola é diretamente responsável pela formação escolar e social do
educando e de seus professores e, deve contribuir, para as práticas saudáveis
de formação do ser, a partir de duas vertentes: propiciar a devida integração
com o conhecimento e ser incluído e respeitado como pessoa.
Atualmente, a mídia veicula constantemente atos violentos nas escolas que
revelam o deterioramento da ética e da moral entre seus atores. De um lado, os
educandos que repelem práticas coercitivas e reveladas de poder e de
autoritarismo e, do outro lado, a escola que procura práticas inclusivas para
resolver as diferenças.
A uniformização do diferente é a base desta inclusão que veladamente
exclui e desintegra as relações. O confronto de fracassos escolares, “falas”
não entendidas, histórias de vida de cada sujeito são estigmas que carregam
muitas vezes os problemas de aprendizagem.
Portanto, o trabalho do Psicopedagogo vai além de dominar as teorias da
aprendizagem, saber aplicar os testes psicopedagógicos e ter formação
continuada da sua função, pois é preciso que saiba entender no entorno
significados que revelem o que não está saudável na integração
afetivo-cognitiva.
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Letramento
de verdade
http://acervo.novaescola.org.br/lingua-portuguesa/pratica-pedagogica/ler-escrever-verdade-423924.shtml
Tanto
quanto a alfabetização, o letramento dos alunos é importante para a conquista
da cidadania
"Se a cartilha é um
tipo de leitura tão bom, por que não há uma entre os livros de sua
estante?" A pergunta, feita pela alfabetizadora Mariá Ferreira dos Santos
a um pai que não concordava com a substituição do tradicional livro didático
por textos variados, o deixou sem resposta. Parcialmente vencido, ele deu um
voto de confiança à professora da Escola Estadual Almirante Barroso, em São
Paulo. Meses depois, totalmente rendido, parabenizou-a agradecido por ter
alfabetizado a filha tão rapidamente. Quando a história aconteceu, Mariá estava
estreando essa metodologia de trabalho, mas já tinha plena consciência de que
não basta ensinar os códigos de leitura e escrita, como relacionar os sons às letras.
É preciso tornar os estudantes capazes de compreender o significado dessa
aprendizagem, para usá-la no dia-a-dia de forma a atender às exigências da
própria sociedade. Em outras palavras, promover o letramento.
Hoje, nove anos depois,
Mariá é especialista em transformar isso em realidade. Na sala de aula, o que
não falta é material escrito. Livros, são mais de mil. Mas há também jornais,
revistas, gibis, folhetos de propaganda, novenas, anúncios de cartomantes,
receitas. Enfim, tudo o que possa servir para garantir que o primeiro tijolo da
grande construção da cidadania fique bem assentado. "Enquanto ainda não
sabem ler, leio tudo para as crianças", conta ela. O resultado desse
esforço é visível. "No final do primeiro semestre, meus 35 alunos, de 6 e
7 anos, estavam lendo e escrevendo", comemora. Dia após dia, Mariá ensina
que há muitos jeitos de usar a técnica que eles recém-aprenderam. Em junho, a
garotada leu com a professora o manual de instruções do rádio que ela levou
para a classe. E cada novo jogo só começa depois que as regras (sempre
impressas, certo?) forem devidamente decifradas.
Infelizmente, essa não é a
rotina nas escolas brasileiras. De modo geral, o que mais se vê é a preocupação
de fazer os estudantes decodificarem a língua. E só. Muitas agem assim por
acreditar que, num passe de mágica, todos se tornem capazes de compreender os
textos de um livro de Ciências Naturais ou de descobrir o melhor jeito de
localizar um endereço no mapa. "Isso é um erro", resume Magda Soares,
professora da Faculdade de Educação e membro do Centro de Alfabetização,
Leitura e Escrita da Universidade Federal de Minas Gerais. "Não é porque
os processos de alfabetização e de letramento são diferentes que devem ser
sucessivos. O ideal é alfabetizar letrando."
Só o avanço contínuo
impede que a criança chegue à 4ª ou à 5ª série sem saber ler nem escrever. Até
porque alfabetizar de verdade é bom também para o professor. "Quem conhece
o processo de aprendizagem e sabe encaminhar as propostas de ensino alcança resultados
sempre próximos de 100%", confirma Rosaura Soligo, coordenadora geral do
Programa de Formação de Professores Alfabetizadores do Ministério da Educação,
oferecido em parceria com secretarias de Educação, universidades e organizações
não-governamentais.
Se você acha um sonho
impossível que todos os alunos aprendam, é melhor repensar alguns conceitos.
Não há pesquisador em educação que aceite a exclusão "natural" de
algumas crianças. Todos podem aprender. Sem exceção. A professora Valéria
Scorsafava comprovou isso no ano passado, quando alfabetizou uma turma de 4a
série com 34 jovens entre 9 e 13 anos —
vários dos quais se consideravam fracassados incorrigíveis. A classe foi
formada pela Escola Municipal de Ensino Fundamental Comandante Gastão Moutinho,
em São Paulo, especialmente para servir de referência e mostrar que não
nascemos inteligentes, mas podemos ficar aprendendo.
Leitura
com sentido
Além de recuperar a
auto-estima da turma, Valéria precisava destacar a função social da leitura. A
solução foi trabalhar por projetos. Um deles foi a produção de um livro com
cantigas de roda. Por serem muito conhecidas, elas são ótimo material de
trabalho no início da alfabetização. Mas e para uma classe de adolescentes?
"Todos se empolgaram porque sugeri que produzíssemos o material para
presentear a turma de 1ª série", diz.
Ao mesmo tempo em que
avançava nas atividades de escrita, Valéria incentivava a leitura. Num canto da
sala, colocou várias caixas com jornais, gibis, revistas e livros de prosa e
poesia. Ela promovia leituras diárias — e
os estudantes podiam levar o material para casa. Uma das publicações que mais
chamaram a atenção da garotada foi a revista Superinteressante. Principalmente
a seção Superintrigante, que traz respostas para perguntas curiosas. Logo
nascia outro projeto: divulgar para os pequenos, da 1ª série, o que era
possível aprender naquelas páginas. "Cada dupla escrevia um texto, só com
as lembranças do que havia sido lido, para dividir com as outras salas",
conta.
O melhor ainda estava por
vir. Os próprios alunos combinaram que não poderia haver erros de ortografia ou
pontuação. Afinal, os textos não eram feitos para a professora corrigir — mas para os leitores. A idéia foi tão
bem-sucedida que as redações passaram a ser colocadas no mural. Assim, toda a
escola tinha acesso ao novo conhecimento. Em dezembro, apenas três estudantes
ainda tinham dificuldades de leitura e escrita. Este ano, a turma continua na
4ª série, para aprender os demais conteúdos do currículo. "Eles realizam
com autonomia os trabalhos em todas as disciplinas e, o mais importante,
acreditam em sua capacidade de aprender", comemora Valéria, que leciona
Língua Portuguesa e Arte.
Elisa, fonoaudióloga, diz
que a solução para boa parte dos problemas de aprendizagem está nas mãos do
professor: não ao estigma de que os pobres não aprendem.
A falta de confiança do
estudante em si mesmo (e do professor em seu trabalho) aparece em quase todas
as histórias de fracasso, principalmente nas regiões mais pobres. "Muitas
escolas encaminham as crianças para especialistas, mas a solução do problema
está lá mesmo", afirma a fonoaudióloga Elisa Maria Pinto Cesar Andrade.
Acostumada a receber pacientes com "dificuldade de aprendizagem" em
seu consultório, ela resolveu investigar a sala de aula.
Toda semana, ela observa o
trabalho de professores de 3ª e 4ª séries em duas escolas públicas de Cotia e
Taboão da Serra, na região metropolitana de São Paulo, e sugere atividades
testadas e aprovadas no consultório. Vários dos exercícios, bastante simples,
são baseados na utilização de livros e jornais. "É preciso acabar com a
crença de que filhos de pais analfabetos ou que não possuem material de leitura
em casa não têm condições de aprender", diz Elisa.
"A primeira coisa que
a escola deve fazer é descobrir qual o grau de letramento das crianças",
ensina Magda Soares. Nas famílias escolarizadas há muito mais situações desse
tipo, como a leitura de jornais e revistas, a redação de um bilhete ou de uma
lista de compras. Mas é bem possível, mesmo para quem não sabe ler, dominar o
conceito de que existe um código próprio para entender as letras, palavras e
textos — na conta de luz, na
indicação da linha do ônibus, no grande outdoor que chama a atenção na rua. E
isso, é claro, vale tanto para crianças como para adultos (leia o quadro). Mais
uma vez, vale o conceito: é possível ser analfabeto e letrado ao mesmo tempo.
Um exemplo vivo disso é o do menino que finge ler enquanto vira as páginas de
um livro.
Isso só aumenta a
responsabilidade em sala de aula. "Nos casos de alunos cujas famílias têm
pouca ou nenhuma escolaridade, o professor, por ser letrado, assume um papel
crucial para o letramento deles", enfatiza Angela Kleiman, professora do
Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Cabe a ele conhecer e avaliar as situações já vividas pelo estudante para
fazê-lo avançar. Um bom caminho é inundar essas crianças com aquilo que elas
não têm em casa: livros, revistas, jornais, material impresso de todo tipo.
"Restringir-se ao livro didático é garantia de fracasso no processo de
aculturar a turma por meio da escrita", completa.
Tarefa
interdisciplinar
O letramento inclui a
capacidade que temos de nos instruir por meio da leitura e de selecionar, entre
muitas informações, aquela que mais nos interessa. A qual professor, então,
está reservada a tarefa de preparar os estudantes para isso? Sim, você acertou
ao responder que todos são responsáveis. Pesquisa realizada nos Estados Unidos
revelou que, num dia normal, 80% do que um adulto lê é não-ficcão: o mapa de
ruas da cidade, um guia de turismo, uma revista, a página do jornal que traz o
horário do programa de TV favorito, uma enciclopédia, uma receita, a tela do
caixa eletrônico do banco.
Ocorre que muitos
professores de Língua Portuguesa limitam-se aos relatos de ficção, o que está
longe do ideal. "Dá para imaginar o sofrimento da criança que só conhece
textos narrativos até a 4ª série e, a partir da 5ª, se vê diante de material
informativo?", pergunta Rosaura Soligo. Segundo ela, o problema é o
empurra-empurra que essa questão provoca. Quem leciona Língua Portuguesa
atribui o problema ao titular da disciplina em questão — seja ela qual for. Este, por sua vez,
acredita que a turma não aprende por uma deficiência na alfabetização.
De fato, argumenta
Lusinete Vasconcelos de Souza, professora do Centro de Ensino e Pesquisa
Aplicada à Educação da Universidade Federal de Goiás, em Goiânia, o docente que
só explora histórias de ficção em classe tem boa parcela de responsabilidade
pelos futuros problemas da garotada. "É preciso mesclar com o texto
informativo, que estará presente não só na própria escola como em toda a
vida." Ela destaca, porém, que esse erro não é exclusividade de quem
leciona Língua Portuguesa. "Os textos têm características diferentes, que
precisam ser mostradas aos estudantes. Não importa a série, não importa a
disciplina. Todos têm de assumir essa obrigação."
Lusinete, doutora em
Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem, fala com a experiência de vinte e
cinco anos de Magistério e treze de alfabetização. Atualmente, ela dá aulas de
Língua Portuguesa, História e Geografia para a 4ª série. Os conteúdos das duas
últimas disciplinas são amarrados em textos expositivos. A hidrografia de
Goiás, por exemplo, serviu para as crianças localizarem no mapa os principais
rios do Estado (Araguaia, Tocantins e Parnaíba). Depois de avaliar as
características e a importância dos três, a turma montou uma maquete da bacia
hidrográfica e escreveu um resumo dos conceitos aprendidos. "Texto bom é
aquele com boa estrutura e conhecimento", diz a professora. Na classe
dela, os trabalhos têm uma introdução, o desenvolvimento das informações e uma
conclusão, na qual o aluno exprime sua opinião sobre o tema.
O estímulo aos textos
opinativos vem desde 1996, quando Lusinete assumiu uma pré-escola. As crianças
continuaram com ela na 1ª série. Em classe, sempre liam notícias de jornal e
discutiam acontecimentos do próprio dia-a-dia. Mas havia um problema: o
bebedouro era distante. Junto com a professora, a turminha preparou um texto
coletivo, solicitando à diretora a instalação de novos garrafões de água. Na
carta, foram listados argumentos para justificar o pedido, como o calor intenso
e a necessidade de se ausentar por muito tempo da sala. "Aquelas crianças,
hoje na 5ª série, são cada vez mais críticas e conscientes", festeja. Na
tese, ela conclui que o texto opinativo facilita a construção e a compreensão
dos textos expositivos, como os que dominam as aulas de Ciências, Geografia,
História e, por que não, Matemática.
Fórmulas
e enunciados
No ano passado, o Programa
de Avaliação da Rede Pública de Educação Básica de Minas Gerais concluiu que
15% dos quase 145000 estudantes de 4a série avaliados têm dificuldade para
entender questões simples, baseadas na interpretação de um texto curto. A
deficiência apareceu também nos testes de Matemática. O drama nem sempre é a
fórmula, mas ler (e extrair o sentido) do problema. "O alto índice de
erros em questões que envolvem operações simples, como adição, só pode ser
explicado pelo fato de o enunciado não ter sido compreendido", avalia
Azuede Fogaça, uma das coordenadoras do programa.
A falha não é exclusiva
dos mineiros. "Há um bom tempo percebemos que os alunos sofrem para
entender as provas de Matemática", reconhece Magali Saquete Lima Moraes,
coordenadora pedagógica de 1ª a 4ª série do Colégio Província de São Pedro, em
Porto Alegre. Por isso, desde 1997 a escola desenvolve um trabalho específico
para suprir essa carência. A solução? Levar a criançada a interpretar textos em
que elementos matemáticos estão embutidos. "Em vez de exercícios que se
resolvem só na base do cálculo, usamos fichas com situações-problema, que
precisam ser interpretadas", explica a professora Edilene Regina Dotto
Janjar.
Nas aulas de Matemática
que Edilene prepara para a 4a série entram até crônicas, como Recado ao Senhor
903, de Rubem Braga (Para Gostar de Ler, Vol. 1, Ed. Ática, tel. (11)
3346-3000, 11,90 reais), que fala sobre o morador de um edifício cujo vizinho
reclama do barulho. Entre informações sobre a localização dos apartamentos e os
horários dos condôminos, há muitas situações envolvendo números. "Quando
li o texto, achei-o perfeito. É preciso raciocinar para responder a algumas
questões que proponho", conta a professora.
Na avaliação dela, a capacidade de interpretação dos estudantes melhora sensivelmente com trabalhos desse tipo. Em outra atividade, com a turma de 6a série, Edilene pediu que todos lessem jornais e recortassem notícias que envolvessem Matemática. Porcentagens, números negativos e abreviados e outros conteúdos típicos da disciplina acabaram virando anúncios criados e apresentados pela moçada. Tudo isso apenas como "aperitivo". Depois, a professora introduziu novos temas. "É um jeito bárbaro de tratar a matéria", diz ela. "As informações já foram assimiladas dentro de um contexto e nada é estranho para a classe."
Jornal
desde a pré-escola
Os jornais, aliás, são
importantes fontes de letramento. De suas páginas é possível extrair informação
e lazer. Para isso, porém, é preciso aprender a lê-los. E isso pode ser feito
antes mesmo da alfabetização. A professora Stefânia Padilha Costa, do Jardim
Municipal Maria Sales Ferreira, de Belo Horizonte, está proporcionando essa
experiência à sua turma de 5 e 6 anos. "Quero estimular o habito da
leitura no dia-a-dia", planeja. O trabalho é feito todas as
segundas-feiras (as terças são dedicadas à poesia, as quartas, quintas e
sextas, à literatura e aos contos de fadas).
"É incrível ver como
os garotos já sabem que, se estou com um jornal nas mãos, não vou ler um texto
que começa com era uma vez", ela conta. No início das atividades, Stefânia
levou para a sala alguns exemplares do Estado de Minas, que edita um suplemento
semanal, o Gurilândia. Todos os cadernos foram manuseados livremente.
"Eles perceberam logo que o jornal grande é dos adultos e o pequeno, das
crianças."
Semana após semana, a
classe é apresentada a uma das seções fixas. O nome de cada uma delas é
incluído pela professora em listas (uma para a edição "adulta" e
outra para a "infantil") que ficam penduradas pelas paredes. A
curiosidade faz com que a gurizada aprenda a escrever as palavras.
Do jornal adulto, Stefânia
sempre escolhe uma reportagem para trazer novas questões. Na maioria das vezes,
o assunto é esporte, presença forte nas edições de segunda-feira. "Vou
fazendo perguntas até que meus alunos consigam descobrir as informações,
principalmente pelas fotos", explica. Só depois ela lê a notícia. Até o
final do ano, o projeto é fazer com que a garotada escreva o próprio
jornalzinho.
Mas o foco do letramento é
outro. Meninos e meninas têm plena consciência de que o Gurilândia é o espaço
para historinhas, notícias e a programação cultural. Ali, a turma descobriu que
a peça teatral Bento Cabeça-de-Vento estava estreando na capital mineira, o que
provocou grande alvoroço. Tanto que a professora organizou uma excursão para
ver o espetáculo. Ou seja, mesmo sem estar 100% alfabetizados, os alunos de
Stefânia já aprenderam a utilidade dos veículos de comunicação. Estão se
letrando.
Toda escola deve assumir a
tarefa de formar leitores, e não apenas de jornais. Mas essa não é uma missão
só dela. "A pequena quantidade de bibliotecas no país é um fator que
contribui, e muito, para a deficiências de letramento dos estudantes",
afirma Angela Kleiman, da Unicamp. De acordo com o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística, 20% dos municípios brasileiros não possuem biblioteca
pública e 55%, que podem se considerar privilegiados, contam com apenas uma.
Sim, e apenas 25% de nossas cidades têm mais de uma biblioteca pública, um
número ridículo. Nos colégios, a situação é um pouco diferente, mas nem por
isso muito melhor: dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais, órgão do MEC, mostram que só 57% dos estudantes do Ensino
Fundamental têm prateleiras de livros à sua disposição.
A Escola Municipal Barão
de Macahubas, no Rio de Janeiro, não tem uma grande biblioteca, mas a
professora Sônia Maria Cerqueira Pierucci comanda uma bela sala de leitura, que
tem por objetivo despertar o gosto pelas letras. Em maio, ela acompanhou um
grupo da 1a à 4a série à Bienal Internacional do Livro, realizada na cidade.
Durante o passeio, os alunos percorreram vários estandes, manusearam
publicações de diferentes autores e ilustradores e até conheceram alguns
escritores. A experiência serviu para preparar um evento semelhante, no
colégio, em julho. Nele, os estudantes expuseram e autografaram as próprias
obras. Algumas eram exemplares coletivos, compostos por textos de toda a classe.
Outras eram produções individuais. Quase todas reproduziam histórias criadas,
lidas e ouvidas durante as aulas
O
prazer de ler
Sônia organiza leituras em
voz alta na classe todos os dias. Uma enquete realizada pelos professores no
início do ano mostrou que os pais dos alunos lêem pouco. Por isso, a escola
resolveu incentivar o hábito entre os filhos. "Sempre que recito alguma
coisa, mostro que adquiro conhecimento e, ao mesmo tempo, sinto prazer e
emoção", diz. Ela não deixa de valorizar, no entanto, as opiniões de todos
nas rodas de leitura. "Eles sabem muito. Às vezes, relacionam histórias
contadas pela família ao assunto em pauta, o que abre brechas para debates
interessantíssimos ou, quem sabe, a escolha de novos livros."
Desde o início do ano, a
professora está formando contadores de histórias entre a turma de 4ª série.
Seis estão se aventurando em outras salas, acompanhados apenas por um colega.
Contar uma história, explica Sônia, é diferente de lê-la. Significa fazer com
que o ouvinte possa entrar no mundo descrito pelo autor — e interpretado pelo narrador.
A preparação da garotada
começa com uma leitura, em que ela dramatiza o texto. "Em seguida, digo
que qualquer um é capaz de fazer o mesmo e convido os interessados." Para
que até os mais retraídos se sintam encorajados, Sônia insiste para que não
haja nenhum tipo de reprovação (vaias, risadas, comentários) ao trabalho dos
colegas. Mesmo que o contador gagueje ou fale muito baixo, é preciso esperar
que ele termine.
Outra técnica que faz sucesso
é a leitura em parceria: uma parte da história é lida pela criança, a outra
pela professora. "Discuto o tema do livro e procuro relacioná-lo ao
contexto em que o aluno vive, ao conhecimento que já possui", descreve
Sônia. "Assim, tudo faz mais sentido." A formação inclui também
ensaios em casa e na escola. Para que os ouvintes se emocionem, é preciso
escolher a melhor maneira de compor cada passagem: triste, alegre, irônica...
"Sei que estou só mostrando um caminho e que os resultados virão no
futuro, mas é muito gratificante."
Livros de ficção, como os
usados por Sônia, jornais, revistas, manuais de instrução, regras de jogos,
cantigas de roda, folhetos de propaganda, textos didáticos e de não-ficção com
conteúdos de todas as áreas do conhecimento. Leve esses materiais para a sala
de aula — e o que mais chegar às
suas mãos. Faltou alguma coisa? Sim. Não se acanhe. Venha conhecer essas
maravilhas junto com seus alunos. Porque os códigos de leitura e escrita a
gente aprende fácil. Mas o letramento é um aprendizado para toda a vida.
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